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No Country for Young People

Between the Beach and a Hard Place*

I’ve recently visited one of those summer music festivals in which youth is given a “free zone” to let off steam. Except for the upper floors of the sponsors’ VIP lounges, the beautiful landscape around was hidden from view by way of advertising panels, much like in Terry Gilliam’s Brazil. Youngsters received a wristband with an electronic chip so as to record their booze consumption. Drones blinked around silently. The sophisticated urbanism of the grounds reminded me of refugee camps in which city life is quickly recreated. One could look at this fenced universe as just another benign festivity, or as an expression of a dystopian apparatus that has been insidiously making its way into the most common aspects of our everyday life.

Dominique Gonzalez-Foerster typically makes us aware
 of hidden meanings in apparently innocent environments. In the first site-specific commission for the new MAAT building, in the context of an inaugural program addressing Utopia/Dystopia, the artist offers us a fictional setting for an alien species to observe humans. Hinting at Lisbon’s easy-going lifestyle, the place looks like an artificial beach. Yet, spectators are soon caught in a performance that rather suggests the camps in which humans have been regularly amassed. Between a rock and a hard place, the artwork presents a critical dilemma. Between the escapism of a beach and the tension of a fenced camp, several possibilities lay ahead of us – but none seems ultimately tenable.

This is the small text I contributed to the Pynchon Park publication, released on occasion of the large environment created by Dominique Gonzalez-Foerster for the opening of MAAT’s new building.

pynchonparkPynchon Park by carlos.h.reis, via Instagram.

In her piece, Dominique captures very well the duality of our times, where dystopic forms of entertainment – from distorted theme parks to recent young adult Hollywood blockbusters – continue to provide the metaphors for our worst fears, as well as a form of escapism to what is now called ‘the perfect storm.’

After 150 years it was first uttered, the term dystopia has become a household companion. That is in itself revealing. However, while being mostly a fictional device, the concept also delivers a theoretical tool to struggle with what is going seriously wrong in our societies.

Coming back to Portugal, I reencountered some of the mildly dystopian characteristics that are now typical of an old and ageing European country – issues that can’t possibly be changed in the course of one political mandate, or the four years I was away.

Amidst the excitement and buzz that make Lisbon 2.0 so attractive – including very lucrative music festivals to which thousands of young tourists flock every year – Portugal is still tarnished by the decaying dominance of a few rich families, the average mediocrity of political and economic elites, the growing social inequality, the low productivity of most labor force, and last but not least, a sort of desperate and overarching nepotism in the face of a widespread lack of job opportunities.

It gives me intense pain to refuse one interesting resumé after the other, even if my small museum team is overworked and, at the rate of 18 exhibitions a year, will be burnt out in one year or two. The most I can offer is a paid internship, which always reminds me of one of the funniest and sharpest artwork series exhibited at this year’s Manifesta.

internsArtwork by my colleague at MoMA, Pablo Helguera, for Manifesta 11.

Look at Tuk-Tuk drivers around Lisbon and not only are they good looking, they also have Master’s degrees. Others, not so lucky to be outdoors, are buried in call centers. Youth unemployment thrives as much as in Spain or Greece, currently at nearly 30%. If novelist Cormac McCarthy suggested the US is ‘no country for old men’, Portugal is certainly not a country for young people.

Alas, the Portuguese state invests heavily in the education of these young people, with university fees as low as $1500 a year. But then, it practically hands out this highly qualified labor force to countries that are already economically ahead. The most educated generation ever in the history of the country is pushed away, forced to emigrate to Germany or the UK. How stupid can that be?

Sure, things must change, and things can change. We can take advantage of a tourist boom, without necessarily falling into the plights of Barcelonization. We have to promote entrepreneurship, although this is difficult in a country where a public service career – and, if possible, the petty corruption that comes with it – is still considered the safe way up and out.

Portuguese authorities must understand that what we are doing to our educated young adults is atrocious. Dystopian indeed.

In face of this, does the country want to be as avant-garde as some of its cultural institutions? Look at the way the world is transforming (art world included), think of the great stagnation coming ahead, and start immediately discussing the 20-hour working week. It’s the only way everyone will get its share of work and opportunities towards a better society.

 

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Lisboa 2.0

 

Não há fome que não dê em fartura. Este ano — este mês, este dia — este blog oferece dois posts. Espantoso. É tempo de balanço.

Há um ano regressava a Lisboa e abraçava o meu ‘novo normal.’ Deixava um confortável e prestigiado ‘9 to 5’ para embarcar numa montanha-russa emocional que, como já sabia, me traria dissabores e desilusões, como também doses sobressalentes de excitação e ilusión.

A vida é mesmo assim. Feita de contrastes, esquizofrenia acelerada. E  apenas vale a pena quando se persegue algo maior — ou, como diria o poeta, quando a alma não é pequena. Apenas assim os obstáculos se tornam ínfimos e indiferentes. Até à frase liminar com que o arquitecto de Ayn Rand brinda o seu assanhado detractor em The Fountainhead: “But I don’t think of you.”

No Portugal obediente e servil que nos habituámos a conhecer, o parágrafo anterior  soaria arrogante e pretensioso.* De facto, por entre os resquícios de um país submetido a 40 anos de fascismo, este tipo de afirmações na primeira pessoa soa ainda indizível — “A lata!” — O despudor, mesmo.

Felizmente, agora estamos na Lisboa 2.0. Começamos a aprender que apenas não temos motivos de orgulho, como temos direito a estar orgulhosos. Começamos a perceber que temos direito a moldar uma cidade à nossa ambição e às nossas capacidades. E que, pequeno detalhe, temos Presidente de Câmara com ambição e capacidade a condizer.

Na Lisboa 2.0 começamos até a perceber que, na abertura de um museu, podemos também ter direito a um discurso prime time inaudito por um Presidente de República brilhante. (A eleição de outro português generoso para secretário-geral das Nações Unidas chegou no dia seguinte.)

Como aconteceu noutras paragens, pode acontecer que a economia da capital do país descole da economia do país — e que onde um perde população, a outra a recupera. O Porto 2.0 também lá está para provar que, como já se sabe, as cidades são o motor económico das regiões — mas também o podem ser para um país.

Claro que ainda há pontes por completar. Claro que ainda há situações ridículas em que compreendemos que as nossas ambições — “Vamos revitalizar a frente ribeirinha de Lisboa!!” — são limitadas por infra-estruturas inadequadas.

museudoscoches

Via jornal Público, sample de foto de Fábio Augusto.

Pode ser por real falta de fundos. Pode ser por galhardias partidárias que ainda nos fazem parecer atrasados mentais perante o mundo. Mas a verdade é que, como país pobre que somos, ainda temos muitos desafios pela frente.

Apesar de Portugal ser um país de pequena dimensão, e logo mais fácil de gerir, há dificuldades reais em ultrapassar atrasos estruturais. É difícil recuperar a distância quando os outros não param de correr. E é mais fácil aos outros continuarem à frente quando partiram com avanço considerável.  Mais irritante, porém, é que num país que não é mesmo para novos, permaneça a abundância de velhos do Restelo.

Estes são os que protestam contra o investimento em cultura por parte de uma empresa que foi privatizada pelo Estado — e que, portanto, a partir daí apenas deve contas aos seus accionistas. São os que ficam obcecados com os detalhes mal-acabados e passam ao lado do gesto maior. São os detractores profissionais a quem falta generosidade para exercer a crítica como um estímulo positivo.

Ainda assim, para todos aqueles que ainda não captaram bem o que está a acontecer, aqui ficam (quase) todas as minhas razões para ter deixado Nova Iorque e regressar a Lisboa. Até que, de novo, precise de mudar de ares.

O texto está todinho na UP, aquela revista inflight da TAP que tem um milhão de leitores por mês. Lisboa 2.0 já não é “um segredo bem guardado.”

 

– “Então, mas, conte-me lá… Porque decidiu regressar de Nova Iorque?”

A senhora sussurrava como se me conhecesse há décadas. O torso ligeiramente inclinado como que à espera de uma confidência, sorriso pícaro, o ponto alto da entrevista. As variantes desta cena repetiram-se ao longo de meses a partir do verão de 2015. A outra pergunta recorrente deixava-me mais inquieto:

– “Mas, então, explique-me lá… Quem é que deixa o MoMA para voltar a Lisboa…?”

Primeiro, tentei as respostas superficiais, nem por isso menos verdadeiras.

– “Ah! A qualidade de vida de Lisboa!”

Depois, entediado, ou apreensivo que alguém pudesse ler todas as minhas entrevistas, mudei de direção. As verdadeiras razões deviam ser caladas para sempre, até que mudasse de ideias. Assim, desenterrava coisas vagamente credíveis sobre o desejo improvável de regressar a Lisboa.

– “Sabe? Um dia via a CNN num quarto de hotel de Düsseldorf e ouvi: “Lisbon is now the coolest capital city in Europe!” Imediatamente pensei: “WTF??!! What am I doing here?”, percebe?”

Coisas do género. Cada escavadela uma minhoca. A ausência de humidade. O almoço na praia a 20 minutos de carro, de maio e outubro. A quantidade de major cities a duas horas de avião.

– “Pense em Nova Iorque… Certo? Nada de interessante a menos de cinco horas de voo.”

Pois. A Europa. A minha casa. O peixe grelhado, claro. O estado do mundo. A beleza inacreditável de Lisboa – quando tantas cidades perderam a graça. Farrapo a farrapo, lá se construía um repertório. Finalmente, vinha a resposta profissional, fácil, ou nem tanto:

– “Minha senhora, não é todos os dias que se recebe o desafio de lançar um novo museu.”

Não queria soar pedagógico, claro. Mas, ainda estrangeirado, lá tinha que explicar que isto, enfim, era once in a life time. Mais a mais, enumerava, se o museu tinha ambições internacionais. Se pretendia ser inovador, a intersetar arte contemporânea com arquitetura, cidade e tecnologia. Se significava uma chance ímpar de pôr artistas a refletir sobre o que está a mudar (n)as nossas vidas. Um projeto assim é único em qualquer sítio (acrescentava). Mais ainda em casa própria, onde nunca se é honrado como profeta (coibia-me de dizer). Dá trabalho. Mas compensa o não usufruir tanto da qualidade de vida para a qual, supostamente, se voltava.

pynchonpark

Via Instagram, foto de Pedro Gadanho.

A abertura do MAAT vai trazer um público diferente a Lisboa. Alguns deles, com quem me cruzava em Bienais e eventos internacionais, diziam-me que procuravam uma boa razão para vir à cidade pela primeira vez. Não se apercebiam que lhes ficava mal a confissão. Não percebiam que era como dizer que nunca tinham visitado Roma ou Paris. Ou Londres. Ou Istambul. Ou Nápoles. Lisboa já tinha tudo de irresistível. Há séculos. Mesmo assim, quisemos juntar-lhe água de beber, contemporaneidade, internacionalização. Agora, temos apenas que evitar que a cidade se torne demasiado atrativa demasiado depressa.

– Shhhhh!…

*Para aqueles que ainda não conhecem, no asterisco está a banda sonora do post.