No Country for Young People

Between the Beach and a Hard Place*

I’ve recently visited one of those summer music festivals in which youth is given a “free zone” to let off steam. Except for the upper floors of the sponsors’ VIP lounges, the beautiful landscape around was hidden from view by way of advertising panels, much like in Terry Gilliam’s Brazil. Youngsters received a wristband with an electronic chip so as to record their booze consumption. Drones blinked around silently. The sophisticated urbanism of the grounds reminded me of refugee camps in which city life is quickly recreated. One could look at this fenced universe as just another benign festivity, or as an expression of a dystopian apparatus that has been insidiously making its way into the most common aspects of our everyday life.

Dominique Gonzalez-Foerster typically makes us aware
 of hidden meanings in apparently innocent environments. In the first site-specific commission for the new MAAT building, in the context of an inaugural program addressing Utopia/Dystopia, the artist offers us a fictional setting for an alien species to observe humans. Hinting at Lisbon’s easy-going lifestyle, the place looks like an artificial beach. Yet, spectators are soon caught in a performance that rather suggests the camps in which humans have been regularly amassed. Between a rock and a hard place, the artwork presents a critical dilemma. Between the escapism of a beach and the tension of a fenced camp, several possibilities lay ahead of us – but none seems ultimately tenable.

This is the small text I contributed to the Pynchon Park publication, released on occasion of the large environment created by Dominique Gonzalez-Foerster for the opening of MAAT’s new building.

pynchonparkPynchon Park by carlos.h.reis, via Instagram.

In her piece, Dominique captures very well the duality of our times, where dystopic forms of entertainment – from distorted theme parks to recent young adult Hollywood blockbusters – continue to provide the metaphors for our worst fears, as well as a form of escapism to what is now called ‘the perfect storm.’

After 150 years it was first uttered, the term dystopia has become a household companion. That is in itself revealing. However, while being mostly a fictional device, the concept also delivers a theoretical tool to struggle with what is going seriously wrong in our societies.

Coming back to Portugal, I reencountered some of the mildly dystopian characteristics that are now typical of an old and ageing European country – issues that can’t possibly be changed in the course of one political mandate, or the four years I was away.

Amidst the excitement and buzz that make Lisbon 2.0 so attractive – including very lucrative music festivals to which thousands of young tourists flock every year – Portugal is still tarnished by the decaying dominance of a few rich families, the average mediocrity of political and economic elites, the growing social inequality, the low productivity of most labor force, and last but not least, a sort of desperate and overarching nepotism in the face of a widespread lack of job opportunities.

It gives me intense pain to refuse one interesting resumé after the other, even if my small museum team is overworked and, at the rate of 18 exhibitions a year, will be burnt out in one year or two. The most I can offer is a paid internship, which always reminds me of one of the funniest and sharpest artwork series exhibited at this year’s Manifesta.

internsArtwork by my colleague at MoMA, Pablo Helguera, for Manifesta 11.

Look at Tuk-Tuk drivers around Lisbon and not only are they good looking, they also have Master’s degrees. Others, not so lucky to be outdoors, are buried in call centers. Youth unemployment thrives as much as in Spain or Greece, currently at nearly 30%. If novelist Cormac McCarthy suggested the US is ‘no country for old men’, Portugal is certainly not a country for young people.

Alas, the Portuguese state invests heavily in the education of these young people, with university fees as low as $1500 a year. But then, it practically hands out this highly qualified labor force to countries that are already economically ahead. The most educated generation ever in the history of the country is pushed away, forced to emigrate to Germany or the UK. How stupid can that be?

Sure, things must change, and things can change. We can take advantage of a tourist boom, without necessarily falling into the plights of Barcelonization. We have to promote entrepreneurship, although this is difficult in a country where a public service career – and, if possible, the petty corruption that comes with it – is still considered the safe way up and out.

Portuguese authorities must understand that what we are doing to our educated young adults is atrocious. Dystopian indeed.

In face of this, does the country want to be as avant-garde as some of its cultural institutions? Look at the way the world is transforming (art world included), think of the great stagnation coming ahead, and start immediately discussing the 20-hour working week. It’s the only way everyone will get its share of work and opportunities towards a better society.

 

Lisboa 2.0

 

Não há fome que não dê em fartura. Este ano — este mês, este dia — este blog oferece dois posts. Espantoso. É tempo de balanço.

Há um ano regressava a Lisboa e abraçava o meu ‘novo normal.’ Deixava um confortável e prestigiado ‘9 to 5’ para embarcar numa montanha-russa emocional que, como já sabia, me traria dissabores e desilusões, como também doses sobressalentes de excitação e ilusión.

A vida é mesmo assim. Feita de contrastes, esquizofrenia acelerada. E  apenas vale a pena quando se persegue algo maior — ou, como diria o poeta, quando a alma não é pequena. Apenas assim os obstáculos se tornam ínfimos e indiferentes. Até à frase liminar com que o arquitecto de Ayn Rand brinda o seu assanhado detractor em The Fountainhead: “But I don’t think of you.”

No Portugal obediente e servil que nos habituámos a conhecer, o parágrafo anterior  soaria arrogante e pretensioso.* De facto, por entre os resquícios de um país submetido a 40 anos de fascismo, este tipo de afirmações na primeira pessoa soa ainda indizível — “A lata!” — O despudor, mesmo.

Felizmente, agora estamos na Lisboa 2.0. Começamos a aprender que apenas não temos motivos de orgulho, como temos direito a estar orgulhosos. Começamos a perceber que temos direito a moldar uma cidade à nossa ambição e às nossas capacidades. E que, pequeno detalhe, temos Presidente de Câmara com ambição e capacidade a condizer.

Na Lisboa 2.0 começamos até a perceber que, na abertura de um museu, podemos também ter direito a um discurso prime time inaudito por um Presidente de República brilhante. (A eleição de outro português generoso para secretário-geral das Nações Unidas chegou no dia seguinte.)

Como aconteceu noutras paragens, pode acontecer que a economia da capital do país descole da economia do país — e que onde um perde população, a outra a recupera. O Porto 2.0 também lá está para provar que, como já se sabe, as cidades são o motor económico das regiões — mas também o podem ser para um país.

Claro que ainda há pontes por completar. Claro que ainda há situações ridículas em que compreendemos que as nossas ambições — “Vamos revitalizar a frente ribeirinha de Lisboa!!” — são limitadas por infra-estruturas inadequadas.

museudoscoches

Via jornal Público, sample de foto de Fábio Augusto.

Pode ser por real falta de fundos. Pode ser por galhardias partidárias que ainda nos fazem parecer atrasados mentais perante o mundo. Mas a verdade é que, como país pobre que somos, ainda temos muitos desafios pela frente.

Apesar de Portugal ser um país de pequena dimensão, e logo mais fácil de gerir, há dificuldades reais em ultrapassar atrasos estruturais. É difícil recuperar a distância quando os outros não param de correr. E é mais fácil aos outros continuarem à frente quando partiram com avanço considerável.  Mais irritante, porém, é que num país que não é mesmo para novos, permaneça a abundância de velhos do Restelo.

Estes são os que protestam contra o investimento em cultura por parte de uma empresa que foi privatizada pelo Estado — e que, portanto, a partir daí apenas deve contas aos seus accionistas. São os que ficam obcecados com os detalhes mal-acabados e passam ao lado do gesto maior. São os detractores profissionais a quem falta generosidade para exercer a crítica como um estímulo positivo.

Ainda assim, para todos aqueles que ainda não captaram bem o que está a acontecer, aqui ficam (quase) todas as minhas razões para ter deixado Nova Iorque e regressar a Lisboa. Até que, de novo, precise de mudar de ares.

O texto está todinho na UP, aquela revista inflight da TAP que tem um milhão de leitores por mês. Lisboa 2.0 já não é “um segredo bem guardado.”

 

– “Então, mas, conte-me lá… Porque decidiu regressar de Nova Iorque?”

A senhora sussurrava como se me conhecesse há décadas. O torso ligeiramente inclinado como que à espera de uma confidência, sorriso pícaro, o ponto alto da entrevista. As variantes desta cena repetiram-se ao longo de meses a partir do verão de 2015. A outra pergunta recorrente deixava-me mais inquieto:

– “Mas, então, explique-me lá… Quem é que deixa o MoMA para voltar a Lisboa…?”

Primeiro, tentei as respostas superficiais, nem por isso menos verdadeiras.

– “Ah! A qualidade de vida de Lisboa!”

Depois, entediado, ou apreensivo que alguém pudesse ler todas as minhas entrevistas, mudei de direção. As verdadeiras razões deviam ser caladas para sempre, até que mudasse de ideias. Assim, desenterrava coisas vagamente credíveis sobre o desejo improvável de regressar a Lisboa.

– “Sabe? Um dia via a CNN num quarto de hotel de Düsseldorf e ouvi: “Lisbon is now the coolest capital city in Europe!” Imediatamente pensei: “WTF??!! What am I doing here?”, percebe?”

Coisas do género. Cada escavadela uma minhoca. A ausência de humidade. O almoço na praia a 20 minutos de carro, de maio e outubro. A quantidade de major cities a duas horas de avião.

– “Pense em Nova Iorque… Certo? Nada de interessante a menos de cinco horas de voo.”

Pois. A Europa. A minha casa. O peixe grelhado, claro. O estado do mundo. A beleza inacreditável de Lisboa – quando tantas cidades perderam a graça. Farrapo a farrapo, lá se construía um repertório. Finalmente, vinha a resposta profissional, fácil, ou nem tanto:

– “Minha senhora, não é todos os dias que se recebe o desafio de lançar um novo museu.”

Não queria soar pedagógico, claro. Mas, ainda estrangeirado, lá tinha que explicar que isto, enfim, era once in a life time. Mais a mais, enumerava, se o museu tinha ambições internacionais. Se pretendia ser inovador, a intersetar arte contemporânea com arquitetura, cidade e tecnologia. Se significava uma chance ímpar de pôr artistas a refletir sobre o que está a mudar (n)as nossas vidas. Um projeto assim é único em qualquer sítio (acrescentava). Mais ainda em casa própria, onde nunca se é honrado como profeta (coibia-me de dizer). Dá trabalho. Mas compensa o não usufruir tanto da qualidade de vida para a qual, supostamente, se voltava.

pynchonpark

Via Instagram, foto de Pedro Gadanho.

A abertura do MAAT vai trazer um público diferente a Lisboa. Alguns deles, com quem me cruzava em Bienais e eventos internacionais, diziam-me que procuravam uma boa razão para vir à cidade pela primeira vez. Não se apercebiam que lhes ficava mal a confissão. Não percebiam que era como dizer que nunca tinham visitado Roma ou Paris. Ou Londres. Ou Istambul. Ou Nápoles. Lisboa já tinha tudo de irresistível. Há séculos. Mesmo assim, quisemos juntar-lhe água de beber, contemporaneidade, internacionalização. Agora, temos apenas que evitar que a cidade se torne demasiado atrativa demasiado depressa.

– Shhhhh!…

*Para aqueles que ainda não conhecem, no asterisco está a banda sonora do post.

Back to Life, Back to Reality: The ‘New Normal’

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sky

As I get back to Lisbon and Europe,* it would seem almost inevitable that this blog returns to its mother tongue. Now that new challenges take flight, time may prove scarce for the pleasures of the text, but the willingness is certainly here.

A good way to guarantee a certain flow, it dawned on me after my last, distant post, may precisely lie in offering sneak previews — or retrospective extracts — of contributions that I will try to continue providing for different publications around the globe.

As such, the following preview is from“Uprooting Urban Design as We Knew It: The ‘New Normal’ and the Return of Utopia,” a text that I have just delivered for the Shenzhen Biennale.

See you there (and discover the remainder of the essay) in December.

2. 

The ‘new normal’ has been diversely portrayed by various sectors of current thinking. In economic terms, it relates to the potential advent of a ‘secular stagnation,’ as former US Secretary of State Larry Summers has put it. The implication is that constant economical growth is no longer the macro-economic rule. In political terms this has translated —and will continue to translate—  into the imperative to impose austerity as a permanent norm. This imposition, on the other hand, represents nothing but a compulsory anticipation of the need to rethink the use and consumption of our resources, soon clearly insufficient to sustain a world population that is growing both in absolute numbers and relative affluence. This being said, we won’t even address the ‘new normal’ of the increasing number of scientists who report the numbers  of a steady progression towards the eventual mass-extinction of the human race.

The field of architecture and urban planning has done little to accommodate and reflect such notions. The majority of the field is still clinging to traditional notions of practice, thus blindfolding itself to violent massive change. In its mainstream version, it takes refuge in the lack of responsibility that comes with its willing transformation into an obedient, acritical service industry. In its intellectual sectors, it still finds it possible to hide behind the bubble of disciplinary autonomy, including both the infantile embrace of parametricism, or the stubborn clasp of a vaguely minimal and conceptual formalism. 

The ‘new normal,’ however, demands a radical transformation of practice. And the radical practice means a fundamental uprooting of the meaning of architecture as we used to know it, not to mention the faster mutation of the role of design thinking itself. This is where an utopian drive that was dormant during some decades of post-critical numbness kicks back in.

On Not Writing / Sobre Não Escrever

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If I’m on a confessional mood I will sometimes tell you that the practice that underlies all my other practices is writing. For biographical reasons, the practice of writing – a thorough, disciplined practice complete with reading extensively about writing itself – came to me before architecture, curating, or even architectural writing. So, when I’m doing architecture, there is a literary, narrative vein that inevitably emerges from and within the design. If I’m curating, I tend to consider that the whole endeavor of researching and organizing a theme is but a preparation for writing a curatorial essay that will represent my findings and conclusions on the given subject. And if I’m about to start a piece of architectural criticism, my preoccupation does not lie exclusively with the object at hand, but also with how to construct the text itself as an autonomous, self-sufficient, innovative piece of writing.

Este é o inicio de um novo ensaio sobre escrita arquitectónica, que acabei de enviar para publicação na revista austríaca GAM#11 – Archiscripts. É uma peça confessional e autoanalítica onde defendo que a escrita sobre a arquitectura deve construir a sua autonomia contra a autonomia da disciplina arquitectónica.

O tema não é novo, mas nunca é demais reivindicar a não-subserviência. O que eu não digo nesse texto é que a sobrevivência da escrita sobre arquitectura pode depender, em última instância, da sua libertação de um objecto que, sem querer generalizar, está a passar por uma fase muito pouco estimulante.

Enquanto o mundo em geral se revela sempre mais igual a si próprio – com guerras fraticidas, crises de saúde e vagas de mortos a invadir insistentemente o domínio tradicional da silly season – o mundo da arquitectura revela-se cada vez mais aborrecedor, talvez com isso anunciando a sua verdadeira insignificância.

Se o mundo da arquitectura está “nas bocas do mundo” é pelas razões erradas. Enquanto o New York Times se decide a pedir a cabeça dos arquitectos-estrela – que é o mesmo que pedir uma arquitectura que clame por menos atenção, que seja mais obediente e apagada – a única tempestade que parece atravessar o cenário arquitectónico contemporâneo é uma não-polémica.

Que Zaha Hadid tenha ou não compaixão pelos trabalhadores explorados nas obras faraónicas que vai fazendo para autocratas iluminados, parece ser uma questão bastante irrelevante para os destinos da disciplina arquitectónica. Que a diva processe judicialmente um crítico que lhe ousou fazer frente é ainda mais mesquinho e insignificante. Mas gera conversa.

DameZahaZaha Hadid, fotografada por Steve Double, via Compass.

Por outro lado, é significativo – mas igualmente menor – que a última celeuma verdadeiramente arquitectónica tenha partido do sócio e porta-voz de Hadid, Patrick Schumacher. Como aludi no meu texto para Homeland (a representação portuguesa numa Bienal de Arquitectura de Veneza que também falhou gerar repercussões), a diatribe de Schumacher em prol da forma arquitectónica sem conteúdo (ético, conceptual, ou outro) é tão destituída de inteligência que só sublinha o enorme vazio que se instalou no campo.

Ou eu estou extremamente desatento e desinformado, ou não se passa mesmo nada de importante na arena arquitectónica, usualmente tão sanguinária e suculenta. Mesmo se ainda mandam umas bocas, as velhas vozes que gostavam de jogar o jogo da autoridade cansaram-se e calaram-se; os críticos mais lidos adoptaram causas sociais e beneméritas absolutamente anódinas; as revistas académicas balbuciam para uma audiência inexistente; a web debita obedientemente um maintsream cada vez mais igual a si próprio.

Lembra-me a frase de uma ex-namorada anglófila: I’m bored, I’m the chairman of the bored.

Em desespero de causa, subscrevi uma nova newsletter, que em vez dos press-releases a que nos habituámos nos mais populares meios arquitectónicos da internet, coleciona resumos de artigos de revistas e jornais. Mas mesmo a ArchNewsNow parece manifestar, ainda mais veementemente, como o discurso crítico que por aí anda é bastante inofensivo e inconsequente.

Conselhos sobre como evitar a etiqueta de “greenwashing” para arquitectos que ainda não perceberam que a “resiliência” já há algum tempo substituiu a “sustentabilidade” (obviamente apenas enquanto termo a não esquecer nas suas apresentações powerpoint), não soa propriamente a um avanço crucial no território do conhecimento arquitectónico.

Inventar o termo “goodwashing” para classificar a última viragem relevante do campo arquitectónico pode ser espirituoso e cool, mas não parece corresponder a mais do que chover no molhado do ano passado. Mas sempre é mais sólido do que voltar à velhíssima história do fachadismo, ou discutir a ideia peregrina, mas porventura sarcástica, de começar a desenhar as nossas cidades para as crianças. Não o fazemos já?

Talvez o problema desta newsletter seja a sua focalização no mundo anglo-saxónico, mesmo se este é o único em que a arquitectura tem uma presença regular nos media generalistas. Porém, como tenho dito a quem me quer ouvir, o mundo anglo-saxónico é também aquele no qual, com mais virulência, se pode adivinhar a morte da arquitectura por doses venenosas de tédio.

Nova Iorque, por exemplo, é suposto ser uma cidade excitante. Isso implicaria uma certa vibração nos seus meios criativos. E, no entanto, é difícil vislumbrar qualquer aspecto inovador na cena arquitectónica local.

Afundados em dívidas escolares e na inevitabilidade de fazer do dinheiro a sua única prioridade, os arquitectos nova-iorquinos ou americanos não podem senão aspirar a integrar o mais depressa possível as fileiras de uma produção corporativa absolutamente deprimente.

Talvez por isso, na exposição de novas aquisições de arquitectura contemporânea que recentemente inaugurei no MoMA apenas três equipas de arquitectos são de Nova Iorque e, entre esses, apenas um deles, os MOS Architects de Michael Meredith e Hilary Sample, são verdadeiramente um produto do sistema americano. Os outros são europeus ou asiáticos a procurar sobreviver num contexto global.

CoSEsq.: Vídeos de MOS Architects em Conceptions of Space, MoMA, 2014.

Enquanto jovens, os arquitectos americanos bem podem ambicionar mostrar uma veia experimental – como, de resto, já escrevi sobre o concurso de talento emergente que o MoMA e o MoMAPs1 promovem aualmente, o Young Architects Program. Porém, essa aptidão para a inovação cedo se reduz a práticas tendencialmente artísticas, como são um bom exemplo os Snarkitecture ou os Bittertang – ou depressa é engolida por uma realidade tecnocrata avassaladora.

Por comparação aos Estados Unidos, a arquitectura europeia no seu conjunto parece um paraíso fervilhante de ideias e novas tendências. Mesmo com crise e perspectivas de não-crescimento, ainda é aí que primeiro emerge alguma rebeldia – como sugere uma nova e inesperada série televisiva da Al Jazeera.

Tudo isto para dizer que, porventura, há momentos que, que por força das circunstâncias, sinto que mais valia ficar calado… e não escrever. Mas talvez esse seja justamente o momento em que é necessário (voltar a) escrever.

Tudo isto para dizer, também, que já me cheira que mesmo um projecto como Uneven Growth, com o tema quente que propõe a debate e a plataforma de divulgação de que dispõe para tal, corre o risco de cair em saco roto.

MoMA_Uneven Growth_cover_cut copySneak-preview de Uneven Growth, The Museum of Modern Art, New York.

Numa situação “normal,” o catálogo de Uneven Growth, que acabou de partir para uma tipografia na Turquia, deveria gerar ondas. Com os seus ensaios por vozes incontornáveis como as de David Harvey, Sakia Sassen, Ricky Burdett e Teddy Cruz, ou com os seus cenários futuros para cidades cada vez mais desiguais, este livro poderia ser uma pedrada no charco.

Porém, começo a desconfiar que não, que não haverá pedrada no charco. Para gerar ondas, não basta a pedrada. Também se requer que o meio repercuta a energia cinética da provocação. Neste momento, porém, as águas estão tão mortas que nem uma pedrada faz mossa.

Bem-Vindos ao Futuro 2.0 (Utopia vs. Distopia)

Em jeito de continuação do post anterior, e em modo de boas-vindas a 2014, tenho-me lembrado com alguma regularidade da entrevista que fiz a Saskia Sassen no âmbito do projecto #unevengrowth.

Na entrevista, a socióloga holandesa sediada na Columbia University revisita uma dicotomia que parece particularmente apropriada para pensar o porvir das cidades globais: a distinção assaz tópica entre uma visão utópica e uma perspectiva distópica do futuro.

S Sassen interviewSaskia Sassen on Utopia vs. Dystopia: ver 7’12”.

Como sugere Sassen, há uma visão utópica que acredita que, perante uma crise grave, todos se unirão e a criatividade emergirá para superar as divisões sociais existentes nas cidades de hoje. Do outro lado, porém, há a possibilidade distópica de que a desigualdade corrente traduza, de facto, “a absoluta desconsideração” de uma minoria privilegiada por “qualquer noção de um projecto colectivo.”

Um dos factoides interessantes com que deparei na minha chegada aos Estados Unidos foi justamente que o adjectivo “distópico,” antes reservado a novelas de ficção científica relativamente obscuras, é agora banal e corrente – tanto no discurso académico, como na prosa diária de jornais respeitáveis.

A dialéctica emergente da utopia vs. distopia – que também se pode traduzir na oposição optimismo/pessimismo – veio-me de novo à memória ao ler “Sillicon Chasm,” um artigo perturbador sobre as ilusões da igualdade de oportunidades – essa noção que antigamente informava o sonho americano.

Enquanto, por aqui, uma demência conservadora estarrecedora continua a tentar convencer toda a gente dos benefícios da economia trickle-down – a ideia delirante de que se houver uns quantos bilionários a sua riqueza  vai pingar magicamente para todos à sua volta – o texto do Weekly Standard mostra com números e estudos que, mesmo no último reduto da cultura empresarial libertária, a desigualdade só continua a aumentar.

Basicamente, a mensagem é agora: “Habituem-se!!”*

Enterrada a quimera de uma classe média minimamente afluente, autores como o economista Tyler Cowen dizem-nos que não há como a resignação para nos ajudar a atravessar a grande estagnação que aí vem – a qual o professor universitário compara sem grandes problemas a uma nova Idade Média na qual… the Average is Over.

Soa distante? Soa a distopia? A única diferença é que agora os servos andam de metro, e em vez de religião têm televisão e lojas de 99 cêntimos. Onde a esperança antes se encontrava num acto de ƒé, hoje encontra-se num auto de consumo que se arrisca tornar fátuo.

De facto, nenhum economista explicou ainda como é que o consumo continuará a alimentar a economia quando o novo proletariado já não tiver margens para qualquer tipo de consumo conspícuo. O Japão aguentou-se durante a deflação? Talvez. Uns tempos. Mas atente-se no nível de vida que já se atingira por aí…

Como os políticos bombardeiam todos os dias, em Portugal o nível de vida vai ter que se resignar e adaptar à (baixa) produtividade local. Mas não se desespere. Ganhe-se conforto na ideia de que vai ser assim em todo o lado – mesmo nos lugares de alta produtividade.

Como se aponta no artigo referido, “85% da população, isto é, 267 milhões dos 315 milhões da América, terão sorte em encontrar empregos de nível MacDonalds ou em ‘amigalhar’ ganhos marginais freelance a realizar biscates a 25$ cada para os seus superiores via TaskRabbit.”

Com o aprisionamento de todos os aspectos da cultura ocidental pela lógica corporativa que assegura o sucesso dos 15% do topo – já que o dinheiro (mais que a mecanização) tomou o comando – recordei-me também que a leitura ideal para 2014 continua a ser The Year of the Flood de Margaret Atwood.

Mas, mesmo se não tivermos mais nada para fazer, não é preciso ir tão longe como ler um livro – que horror! – para perceber que as várias incarnações da perspectiva distópica estão a invadir a nossa cultura popular em várias frentes.

thething1958Image hacked from The Celluloid Highway

A indústria da cultura sempre teve o dom de popular o nosso subconsciente com os temas do dia – quer se trate dos aliens em vez dos comunistas dos anos 50, ou zombies em vez dos pobres de agora. E o momento corrente não é excepção.

De Hunger Games e Elysium até In Time – só para referir alguns blockbusters de Holllyood que já nem se dão ao trabalho de criar metáforas – abundam como nunca as antecipações de mundos que, sem qualquer catástrofe pelo meio, se encontram perfeitamente divididos em duas classes sociais antagónicas.

O problema da perspectiva distópica é que já não se pode perguntar: de que lado quero estar? Desaparecida a classe média em que muitos cresceram, e mesmo com o aparente advento da meritocracia – que, é bom notar, também tende para a exclusão –, a possibilidade da escolha está a desaparecer.

Como Saskia Sassen e muitos outros nos dizem, num mundo que, como Nova Iorque, é cada vez mais “first come, first served”, a velha ideia de “mobilidade social ascendente” também anda cada vez mais pelas ruas da amargura.

E, assim, por entre os pensamentos pessimistas que as distopias nos provocam em jeito de cautionary tale – pensamentos que podem ou não envolver o fim de civilizações desenvolvidas no pico do seu auge – resta saber onde encontrar algum optimismo.

Será que encontraremos soluções na aparente capacidade da tecnologia para ir resolvendo todos os problemas que se lhe deparam até à debandada final, tipo filme de crianças versão Wall-E?

Wall-E1-800x960Wall-E hacked from WallPapersUs (Pedrog Re-Edit)

Acreditemos que sim. De facto, sem esse optimismo, projectos como Uneven Growth, ou a ideia de que arquitectos ou designers ou outros podem endereçar estas questões, careceriam de qualquer tipo de sentido.

Para regressar às noticias que muito selectivamente leio de Portugal, onde não vejo soluções locais para os problemas económicos da grande estagnação é no recurso ao Conselho da Diáspora (de que, em jeito de disclaimer, faço parte), a “fixar arquitectos” (dos quais já descolei há tempos), ou, enfim, a acreditar no conto de fadas de que o “crescimento vem aí.”

De facto, dada a globalização vigente, em última instância não determinamos o nosso próprio crescimento –  simplesmente procuramos adaptar-nos ao que vai acontecendo à nossa volta. E a dita Diáspora também não vai ajudar porque, globalizada ou escorraçada, não faz mais que também ela tentar sobreviver.

Quanto a “fixar os arquitectos,” e sem desprimor pelo meu apreciado colega e recém-empossado Presidente da Ordem dos Arquitectos, não vejo mesmo como é que João Santa-Rita vai operar esse milagre.

Diversificação? Só se for no estrangeiro, como poderei pessoalmente afiançar. Investimento e empenho estatal na reabilitação das cidades com obrigatoriedade de emprego de arquitectos? Seria lógico e apetecível, mas, mesmo com vontade política, apenas se ainda houvesse dinheiro para isso…

Como diz o outro, o economista, mais vale que nos dediquemos a saborear a resignação de alugar uns quartinhos reabilitados no Airbnb.

Enquanto o turismo global dos 85% tiver pernas para andar, claro. Porque os 15%, ou os 5%, ou os 1%, obviamente dispensam essas coisas rascas.

Futuro Desigual, Destino Equivalente

Enquanto Uneven Growth, Tactical Urbanisms for Expanding Megacities parece lentamente tornar-se realidade – pelo menos do ponto de vista mediático – lembrei-me de publicar aqui a versão original e completa do “white paper” onde germinaram muitas das ideias por detrás da exposição que agora se anuncia para o MoMA, em Novembro de 2014.

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Merece-me comemorar aqui o facto de a tradução portuguesa deste ensaio, que em 2011 viu a luz do dia numa publicação académica da Universidade de Gent com o curioso título de Tickle your Catastrophe, estar para breve.

Pelo menos é o que me diz um desses corajosos editores que, no meio da pantanosa crise portuguesa, ainda insiste em fazer alguma coisa.

Esta publicação junta-se assim a algumas outras, como os catálogos da conferência Once Upon a Place ou da exposição Performance Architecture, que nos últimos tempos aparecem muito a custo, a culminar os últimos projectos que levei a cabo em Portugal.

Lembrando-me desses projectos, ocorre-me quão incrível é que, em Portugal, ainda sobre gente* como a Susana – a figura tenaz por detrás da conferência sobre arquitectura e ficção, que, a propósito, tem agora a sua segunda edição já noutras paragens, infelizmente em versão um pouco mais boring.

Ainda há portugueses que, a partir do seu lugar, resistem a essa mistura de ódio entranhado e inveja encapotada pelos que querem fazer alguma coisa, que infelizmente ainda singra na sociedade portuguesa – mesmo quando a austeridade deveria sugerir maior solidariedade.

No momento em que, por outro lado, a solidariedade de gala começa, por incipiente e bacoca que seja, a substituir o Estado na manutenção do que tínhamos adquirido por básico, torna-se mais ou menos claro que estamos a bater no fundo. (Na Europa e no mundo, os outros também se estão a afundar, apenas ainda não o reconheceram.)

Talvez devêssemos começar a mostrar mais do nosso típico respeitinho por aqueles que ainda se dão ao trabalho de querer fazer – em vez de, também eles, sejam empreendedores, políticos ou agentes culturais, se dedicarem à tarefa bem mais fácil de ir para a praia

Diria com algum grau de certeza que, se há gente que ajuda a manter qualquer coisa à tona, essa é precisamente feita dos que gostam de “fazer” malgré tout.

Para dar algum alento aos que persistem, devo dizer que, como todos os projectos com alguma ambição, também Uneven Growth teve uma gestação longa e difícil – o que, de resto, continua a ser verdade mesmo após o lançamento público bem sucedido da exposição e do primeiro workshop do projecto no MoMA PS1 há duas semanas atrás.

Cohstra@MoMAPS1MoMAPS1, do modo que agora encontramos as nossas imagens… via Twiter.

Por vezes, ocorre-me que a razão essencial porque o destino me trouxe a uma instituição como o MoMA tem precisamente a ver com a necessidade inata, ou a profunda carolice, de querer levar este projecto a bom porto. (Embora, obviamente, não devesse falar antes de tempo.)

Aqui e ali e acolá e outra vez aqui, ainda sob a designação de Emergent Megalopolis, podem ainda ler-se os restos arqueológicos de um conceito nascido numa visita a Saigão há mais de dez anos atrás – num tempo da minha vida em que ainda era possível decidir, de um momento para o outro, que ia viajar durante um mês no Sudoeste Asiático.

Em Saigão, sob o efeito da percepção aguda que as viagens proporcionam, tive uma experiência decisiva e transformadora: atravessar a rua numa realidade urbana que me era inteiramente nova.

Saigon-ViaWithoutBaggageAs ruas de Saigão, a.k.a. Ho Chi Min City, via Without Baggage.

Quando se atravessa a rua em Saigão, o acto tem que ser negociado de uma forma diferente do habitual. Numa cidade sem semáforos e com milhões de scooters (como agora vim a reencontrar em Taipei) a primeira coisa que nos ensinam é que, para atravessar os antigos boulevards carregados de um fluxo de trânsito incessante, também os transeuntes não podem parar.

Quando se atravessa a rua em Saigão, temos que nos munir de coragem e avançar sempre ao mesmo passo por entre a corrente compacta de tráfego. E temos que olhar nos olhos todos aqueles que avançam para nós, para perceber se vão passar à nossa frente, ou atrás de nós.

Foi nesse momento da negociação do olhar com milhares de jovens asiáticos que nasceu a inspiração de que, mais cedo do que mais tarde, teríamos que imaginar novos modos de responder ao crescimento do urbano no século XXI.

Tal como, no inicio do séc. XX, Georg Simmel alertou para a emergência de uma nova consciência metropolitana, agora devemos preparar-nos para o estado de emergência da urbanização completa de um planeta em que os recursos, ao contrário da população, não estão propriamente a crescer de dia para dia.

E por isso vale a pena sublinhar que, depois de querer ter sido programa de televisão e documentário experimental multi-episódios, e para além do desejo de mapear de novas formas de prática arquitectónica, ou a vontade de perceber como substituir estratégias de planeamento obsoletas, este projecto é agora, apenas e só, uma investigação sobre como arquitectos e outros actores urbanos podem vir a lidar com a desigualdade e o empobrecimento progressivo de uma sociedade cada vez mais intrinsecamente global.

Under the Influence

Enquanto, para irritação certa daqueles que em Portugal se tomam como o centro da atenção, a Trienal de Arquitectura de Lisboa se abria ao mundo (aqui, ali e acolá) , eu fui antes convidado para passar pela Triennale de Milão, onde o hardcore da arquitectura portoguesa se mostra mais uma vez aos (seus) pares.

siza3Image via Bea Spoli.

Após silêncio tão prolongado deste blogue, e os inevitáveis boatos de extinção daí advindos, pensei que seria justo brindar os “meus leitores” (essa minoria insondável, entre os fiéis indefectíveis e os google translate new-comers) com o meu contributo para essa exposição que agora se abriu por terras de Itália.

Como, para minha grande desdita, a disponibilidade para o deleite da escrita se tem revelado cada vez mais escassa, também aos organizadores da exposição tive que propor uma revisita a um texto que havia escrito há precisamente quatro anos – e que aqui também deixo à mão de semear.

Felizmente, e como por sorte me sucede acontecer, a revisita não resvalou necessariamente para o plágio em casa própria, ou, em termos mais pós-modernos e legitimantes, para a mera (auto)-apropriação, mas resultou antes numa curiosa actualização da estória e dos personagens que antes inventara.

Assim, mais linkado* aqui do que o papel ou o painel permitirão, aqui fica o meu pequeno texto para a exposição Porto Poetic, para que um dia os exegetas tenham a tarefa facilitada, pelo menos no que diz respeito a descobrir conexões, referências e outras ligações obscuras que, por alguma razão misteriosa, fazem sempre parte do prazer do texto.

Regeneração Debaixo do Vulcão

Quando se fala de cultura, as figuras de referência são o que se pode chamar um benefício contraditório. Essas figuras raras – génios, talentos incontornáveis, personalidades brilhantes – dão lugar a um paradoxo que apelidarei de “debaixo do vulcão.” Quando existem figuras de reconhecimento e prestígio excepcional num determinado campo de actuação cultural, é mais que certo que o valor que se introduz nesse campo é positivo. O capital cultural, como lhe chamaria Pierre Bourdieu, eleva-se às alturas. O campo torna-se mais rico. Sob a famosa “ansiedade da influência,” cresce a exigência e, logo, a qualidade.

No entanto, a situação não é desprovida de riscos. O campo pode “paralisar” devido a um excesso de carga positiva – o que se pode evocar como o “efeito Glenn Gould.” Perante a impossibilidade de superar as mencionadas figuras de referência, o campo cede à lógica da “terra queimada,” à criação de um no man’s land onde nada cresce durante gerações. No campo da arquitectura, este efeito é deveras conhecido, associado a personagens maiores como Le Corbusier, ou Óscar Niemeyer. Após o fulgor destas figuras maiores, parece apagar-se o brilho das gerações que se lhe sucedem.

Entre estas duas vertentes pode surgir também o estado “debaixo do vulcão” – que no passado tive oportunidade de descrever a propósito da arquitectura portuguesa. Como a presença de um vulcão no horizonte próximo, escrevia, personagens como Siza Vieira ou Souto Moura originam um território fértil. No entanto, “perante a eminência permanente da devastação,” podem também gerar um estado de suspensão hipnótica. Assim, a arquitectura portuguesa contemporânea, como o vice-cônsul do famoso romance “Under the Volcano” de Malcolm Lowry, viveria “simultaneamente inebriada e deprimida.”

UndertheVolcano

 …

Perante a dificuldade de copiar Siza, ou a facilidade de copiar Souto Moura, perante a evidência da fertilidade ou a eminência do vazio, as gerações pós-Pritzkers encararam um falso dilema: continuidade ou ruptura? Essa era, pelo menos, a tónica do discurso critico que também crescera à sombra do vulcão. Contribuí para a agitação das almas, propondo que, entre esses dois pólos, duas gerações emergiriam em Portugal num curto espaço de tempo. Essas gerações não eram assim tão diferentes. Mas, como mostrado na Bienal de Veneza de 2004, manifestavam diferentes apreciações das cinzas onde prosperavam.

A geração que levava a “continuidade” para novos territórios – e que é agora re-apresentada em Porto Poetic – fez-se herdeira legítima dos mestres, permitindo-se introduzir novas influências e perspectivas no seu legado. Usufruindo da proximidade geográfica e emocional ao vulcão, pelo menos enquanto aí havia espaço, cultivaram diligentemente o  terreno fecundo deixado pelas magnas erupções do passado.       Trouxeram novos instrumentos e técnicas, importaram referências do estrangeiro ou dos campos adjacentes da arte, e garantiram que a fertilidade dava os seus frutos.

A geração que era acusada do pecado da “ruptura,” não era menos dada a gerir a fertilidade que encontrara no chão onde crescera. Porventura mais volátil e inconstante, como costuma ser apanágio da juventude que pode sê-lo, apenas precisava de mais tempo para dar uso aos talentos que lhe foram confiados. Viajaram para longe do vulcão, pensaram eventualmente em estabelecer-se noutros territórios convenientemente distantes. Voltando ou não voltando, usufruiriam, também elas, do caldo genético que o vulcão deixara nas suas terras de origem.

Revisitada esta estória, é justo dizer que o trocadilho contido no termo “re-generation” é apropriado à descrição das novas gerações de arquitectos portugueses, quer estes sejam aclamados pela “continuidade” ou pela “ruptura.” Entre vulcões e pools genéticas, a importância da herança da arquitectura portuguesa, e de Siza Vieira em particular, é mostrar que a arquitectura se faz por regeneração, miscigenação, renovação.  Como dizia o outro, parar é morrer. Portanto é preciso que cada geração construa algo novo sobre aquilo que lhe é deixado. Uma vez que se compreenda isto, tudo o mais é relativo.

Nova Iorque, Agosto 2013