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No Country for Young People

Between the Beach and a Hard Place*

I’ve recently visited one of those summer music festivals in which youth is given a “free zone” to let off steam. Except for the upper floors of the sponsors’ VIP lounges, the beautiful landscape around was hidden from view by way of advertising panels, much like in Terry Gilliam’s Brazil. Youngsters received a wristband with an electronic chip so as to record their booze consumption. Drones blinked around silently. The sophisticated urbanism of the grounds reminded me of refugee camps in which city life is quickly recreated. One could look at this fenced universe as just another benign festivity, or as an expression of a dystopian apparatus that has been insidiously making its way into the most common aspects of our everyday life.

Dominique Gonzalez-Foerster typically makes us aware
 of hidden meanings in apparently innocent environments. In the first site-specific commission for the new MAAT building, in the context of an inaugural program addressing Utopia/Dystopia, the artist offers us a fictional setting for an alien species to observe humans. Hinting at Lisbon’s easy-going lifestyle, the place looks like an artificial beach. Yet, spectators are soon caught in a performance that rather suggests the camps in which humans have been regularly amassed. Between a rock and a hard place, the artwork presents a critical dilemma. Between the escapism of a beach and the tension of a fenced camp, several possibilities lay ahead of us – but none seems ultimately tenable.

This is the small text I contributed to the Pynchon Park publication, released on occasion of the large environment created by Dominique Gonzalez-Foerster for the opening of MAAT’s new building.

pynchonparkPynchon Park by carlos.h.reis, via Instagram.

In her piece, Dominique captures very well the duality of our times, where dystopic forms of entertainment – from distorted theme parks to recent young adult Hollywood blockbusters – continue to provide the metaphors for our worst fears, as well as a form of escapism to what is now called ‘the perfect storm.’

After 150 years it was first uttered, the term dystopia has become a household companion. That is in itself revealing. However, while being mostly a fictional device, the concept also delivers a theoretical tool to struggle with what is going seriously wrong in our societies.

Coming back to Portugal, I reencountered some of the mildly dystopian characteristics that are now typical of an old and ageing European country – issues that can’t possibly be changed in the course of one political mandate, or the four years I was away.

Amidst the excitement and buzz that make Lisbon 2.0 so attractive – including very lucrative music festivals to which thousands of young tourists flock every year – Portugal is still tarnished by the decaying dominance of a few rich families, the average mediocrity of political and economic elites, the growing social inequality, the low productivity of most labor force, and last but not least, a sort of desperate and overarching nepotism in the face of a widespread lack of job opportunities.

It gives me intense pain to refuse one interesting resumé after the other, even if my small museum team is overworked and, at the rate of 18 exhibitions a year, will be burnt out in one year or two. The most I can offer is a paid internship, which always reminds me of one of the funniest and sharpest artwork series exhibited at this year’s Manifesta.

internsArtwork by my colleague at MoMA, Pablo Helguera, for Manifesta 11.

Look at Tuk-Tuk drivers around Lisbon and not only are they good looking, they also have Master’s degrees. Others, not so lucky to be outdoors, are buried in call centers. Youth unemployment thrives as much as in Spain or Greece, currently at nearly 30%. If novelist Cormac McCarthy suggested the US is ‘no country for old men’, Portugal is certainly not a country for young people.

Alas, the Portuguese state invests heavily in the education of these young people, with university fees as low as $1500 a year. But then, it practically hands out this highly qualified labor force to countries that are already economically ahead. The most educated generation ever in the history of the country is pushed away, forced to emigrate to Germany or the UK. How stupid can that be?

Sure, things must change, and things can change. We can take advantage of a tourist boom, without necessarily falling into the plights of Barcelonization. We have to promote entrepreneurship, although this is difficult in a country where a public service career – and, if possible, the petty corruption that comes with it – is still considered the safe way up and out.

Portuguese authorities must understand that what we are doing to our educated young adults is atrocious. Dystopian indeed.

In face of this, does the country want to be as avant-garde as some of its cultural institutions? Look at the way the world is transforming (art world included), think of the great stagnation coming ahead, and start immediately discussing the 20-hour working week. It’s the only way everyone will get its share of work and opportunities towards a better society.

 

Lisboa 2.0

 

Não há fome que não dê em fartura. Este ano — este mês, este dia — este blog oferece dois posts. Espantoso. É tempo de balanço.

Há um ano regressava a Lisboa e abraçava o meu ‘novo normal.’ Deixava um confortável e prestigiado ‘9 to 5’ para embarcar numa montanha-russa emocional que, como já sabia, me traria dissabores e desilusões, como também doses sobressalentes de excitação e ilusión.

A vida é mesmo assim. Feita de contrastes, esquizofrenia acelerada. E  apenas vale a pena quando se persegue algo maior — ou, como diria o poeta, quando a alma não é pequena. Apenas assim os obstáculos se tornam ínfimos e indiferentes. Até à frase liminar com que o arquitecto de Ayn Rand brinda o seu assanhado detractor em The Fountainhead: “But I don’t think of you.”

No Portugal obediente e servil que nos habituámos a conhecer, o parágrafo anterior  soaria arrogante e pretensioso.* De facto, por entre os resquícios de um país submetido a 40 anos de fascismo, este tipo de afirmações na primeira pessoa soa ainda indizível — “A lata!” — O despudor, mesmo.

Felizmente, agora estamos na Lisboa 2.0. Começamos a aprender que apenas não temos motivos de orgulho, como temos direito a estar orgulhosos. Começamos a perceber que temos direito a moldar uma cidade à nossa ambição e às nossas capacidades. E que, pequeno detalhe, temos Presidente de Câmara com ambição e capacidade a condizer.

Na Lisboa 2.0 começamos até a perceber que, na abertura de um museu, podemos também ter direito a um discurso prime time inaudito por um Presidente de República brilhante. (A eleição de outro português generoso para secretário-geral das Nações Unidas chegou no dia seguinte.)

Como aconteceu noutras paragens, pode acontecer que a economia da capital do país descole da economia do país — e que onde um perde população, a outra a recupera. O Porto 2.0 também lá está para provar que, como já se sabe, as cidades são o motor económico das regiões — mas também o podem ser para um país.

Claro que ainda há pontes por completar. Claro que ainda há situações ridículas em que compreendemos que as nossas ambições — “Vamos revitalizar a frente ribeirinha de Lisboa!!” — são limitadas por infra-estruturas inadequadas.

museudoscoches

Via jornal Público, sample de foto de Fábio Augusto.

Pode ser por real falta de fundos. Pode ser por galhardias partidárias que ainda nos fazem parecer atrasados mentais perante o mundo. Mas a verdade é que, como país pobre que somos, ainda temos muitos desafios pela frente.

Apesar de Portugal ser um país de pequena dimensão, e logo mais fácil de gerir, há dificuldades reais em ultrapassar atrasos estruturais. É difícil recuperar a distância quando os outros não param de correr. E é mais fácil aos outros continuarem à frente quando partiram com avanço considerável.  Mais irritante, porém, é que num país que não é mesmo para novos, permaneça a abundância de velhos do Restelo.

Estes são os que protestam contra o investimento em cultura por parte de uma empresa que foi privatizada pelo Estado — e que, portanto, a partir daí apenas deve contas aos seus accionistas. São os que ficam obcecados com os detalhes mal-acabados e passam ao lado do gesto maior. São os detractores profissionais a quem falta generosidade para exercer a crítica como um estímulo positivo.

Ainda assim, para todos aqueles que ainda não captaram bem o que está a acontecer, aqui ficam (quase) todas as minhas razões para ter deixado Nova Iorque e regressar a Lisboa. Até que, de novo, precise de mudar de ares.

O texto está todinho na UP, aquela revista inflight da TAP que tem um milhão de leitores por mês. Lisboa 2.0 já não é “um segredo bem guardado.”

 

– “Então, mas, conte-me lá… Porque decidiu regressar de Nova Iorque?”

A senhora sussurrava como se me conhecesse há décadas. O torso ligeiramente inclinado como que à espera de uma confidência, sorriso pícaro, o ponto alto da entrevista. As variantes desta cena repetiram-se ao longo de meses a partir do verão de 2015. A outra pergunta recorrente deixava-me mais inquieto:

– “Mas, então, explique-me lá… Quem é que deixa o MoMA para voltar a Lisboa…?”

Primeiro, tentei as respostas superficiais, nem por isso menos verdadeiras.

– “Ah! A qualidade de vida de Lisboa!”

Depois, entediado, ou apreensivo que alguém pudesse ler todas as minhas entrevistas, mudei de direção. As verdadeiras razões deviam ser caladas para sempre, até que mudasse de ideias. Assim, desenterrava coisas vagamente credíveis sobre o desejo improvável de regressar a Lisboa.

– “Sabe? Um dia via a CNN num quarto de hotel de Düsseldorf e ouvi: “Lisbon is now the coolest capital city in Europe!” Imediatamente pensei: “WTF??!! What am I doing here?”, percebe?”

Coisas do género. Cada escavadela uma minhoca. A ausência de humidade. O almoço na praia a 20 minutos de carro, de maio e outubro. A quantidade de major cities a duas horas de avião.

– “Pense em Nova Iorque… Certo? Nada de interessante a menos de cinco horas de voo.”

Pois. A Europa. A minha casa. O peixe grelhado, claro. O estado do mundo. A beleza inacreditável de Lisboa – quando tantas cidades perderam a graça. Farrapo a farrapo, lá se construía um repertório. Finalmente, vinha a resposta profissional, fácil, ou nem tanto:

– “Minha senhora, não é todos os dias que se recebe o desafio de lançar um novo museu.”

Não queria soar pedagógico, claro. Mas, ainda estrangeirado, lá tinha que explicar que isto, enfim, era once in a life time. Mais a mais, enumerava, se o museu tinha ambições internacionais. Se pretendia ser inovador, a intersetar arte contemporânea com arquitetura, cidade e tecnologia. Se significava uma chance ímpar de pôr artistas a refletir sobre o que está a mudar (n)as nossas vidas. Um projeto assim é único em qualquer sítio (acrescentava). Mais ainda em casa própria, onde nunca se é honrado como profeta (coibia-me de dizer). Dá trabalho. Mas compensa o não usufruir tanto da qualidade de vida para a qual, supostamente, se voltava.

pynchonpark

Via Instagram, foto de Pedro Gadanho.

A abertura do MAAT vai trazer um público diferente a Lisboa. Alguns deles, com quem me cruzava em Bienais e eventos internacionais, diziam-me que procuravam uma boa razão para vir à cidade pela primeira vez. Não se apercebiam que lhes ficava mal a confissão. Não percebiam que era como dizer que nunca tinham visitado Roma ou Paris. Ou Londres. Ou Istambul. Ou Nápoles. Lisboa já tinha tudo de irresistível. Há séculos. Mesmo assim, quisemos juntar-lhe água de beber, contemporaneidade, internacionalização. Agora, temos apenas que evitar que a cidade se torne demasiado atrativa demasiado depressa.

– Shhhhh!…

*Para aqueles que ainda não conhecem, no asterisco está a banda sonora do post.

Back to Life, Back to Reality: The ‘New Normal’

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As I get back to Lisbon and Europe,* it would seem almost inevitable that this blog returns to its mother tongue. Now that new challenges take flight, time may prove scarce for the pleasures of the text, but the willingness is certainly here.

A good way to guarantee a certain flow, it dawned on me after my last, distant post, may precisely lie in offering sneak previews — or retrospective extracts — of contributions that I will try to continue providing for different publications around the globe.

As such, the following preview is from“Uprooting Urban Design as We Knew It: The ‘New Normal’ and the Return of Utopia,” a text that I have just delivered for the Shenzhen Biennale.

See you there (and discover the remainder of the essay) in December.

2. 

The ‘new normal’ has been diversely portrayed by various sectors of current thinking. In economic terms, it relates to the potential advent of a ‘secular stagnation,’ as former US Secretary of State Larry Summers has put it. The implication is that constant economical growth is no longer the macro-economic rule. In political terms this has translated —and will continue to translate—  into the imperative to impose austerity as a permanent norm. This imposition, on the other hand, represents nothing but a compulsory anticipation of the need to rethink the use and consumption of our resources, soon clearly insufficient to sustain a world population that is growing both in absolute numbers and relative affluence. This being said, we won’t even address the ‘new normal’ of the increasing number of scientists who report the numbers  of a steady progression towards the eventual mass-extinction of the human race.

The field of architecture and urban planning has done little to accommodate and reflect such notions. The majority of the field is still clinging to traditional notions of practice, thus blindfolding itself to violent massive change. In its mainstream version, it takes refuge in the lack of responsibility that comes with its willing transformation into an obedient, acritical service industry. In its intellectual sectors, it still finds it possible to hide behind the bubble of disciplinary autonomy, including both the infantile embrace of parametricism, or the stubborn clasp of a vaguely minimal and conceptual formalism. 

The ‘new normal,’ however, demands a radical transformation of practice. And the radical practice means a fundamental uprooting of the meaning of architecture as we used to know it, not to mention the faster mutation of the role of design thinking itself. This is where an utopian drive that was dormant during some decades of post-critical numbness kicks back in.

Futuro Desigual, Destino Equivalente

Enquanto Uneven Growth, Tactical Urbanisms for Expanding Megacities parece lentamente tornar-se realidade – pelo menos do ponto de vista mediático – lembrei-me de publicar aqui a versão original e completa do “white paper” onde germinaram muitas das ideias por detrás da exposição que agora se anuncia para o MoMA, em Novembro de 2014.

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Merece-me comemorar aqui o facto de a tradução portuguesa deste ensaio, que em 2011 viu a luz do dia numa publicação académica da Universidade de Gent com o curioso título de Tickle your Catastrophe, estar para breve.

Pelo menos é o que me diz um desses corajosos editores que, no meio da pantanosa crise portuguesa, ainda insiste em fazer alguma coisa.

Esta publicação junta-se assim a algumas outras, como os catálogos da conferência Once Upon a Place ou da exposição Performance Architecture, que nos últimos tempos aparecem muito a custo, a culminar os últimos projectos que levei a cabo em Portugal.

Lembrando-me desses projectos, ocorre-me quão incrível é que, em Portugal, ainda sobre gente* como a Susana – a figura tenaz por detrás da conferência sobre arquitectura e ficção, que, a propósito, tem agora a sua segunda edição já noutras paragens, infelizmente em versão um pouco mais boring.

Ainda há portugueses que, a partir do seu lugar, resistem a essa mistura de ódio entranhado e inveja encapotada pelos que querem fazer alguma coisa, que infelizmente ainda singra na sociedade portuguesa – mesmo quando a austeridade deveria sugerir maior solidariedade.

No momento em que, por outro lado, a solidariedade de gala começa, por incipiente e bacoca que seja, a substituir o Estado na manutenção do que tínhamos adquirido por básico, torna-se mais ou menos claro que estamos a bater no fundo. (Na Europa e no mundo, os outros também se estão a afundar, apenas ainda não o reconheceram.)

Talvez devêssemos começar a mostrar mais do nosso típico respeitinho por aqueles que ainda se dão ao trabalho de querer fazer – em vez de, também eles, sejam empreendedores, políticos ou agentes culturais, se dedicarem à tarefa bem mais fácil de ir para a praia

Diria com algum grau de certeza que, se há gente que ajuda a manter qualquer coisa à tona, essa é precisamente feita dos que gostam de “fazer” malgré tout.

Para dar algum alento aos que persistem, devo dizer que, como todos os projectos com alguma ambição, também Uneven Growth teve uma gestação longa e difícil – o que, de resto, continua a ser verdade mesmo após o lançamento público bem sucedido da exposição e do primeiro workshop do projecto no MoMA PS1 há duas semanas atrás.

Cohstra@MoMAPS1MoMAPS1, do modo que agora encontramos as nossas imagens… via Twiter.

Por vezes, ocorre-me que a razão essencial porque o destino me trouxe a uma instituição como o MoMA tem precisamente a ver com a necessidade inata, ou a profunda carolice, de querer levar este projecto a bom porto. (Embora, obviamente, não devesse falar antes de tempo.)

Aqui e ali e acolá e outra vez aqui, ainda sob a designação de Emergent Megalopolis, podem ainda ler-se os restos arqueológicos de um conceito nascido numa visita a Saigão há mais de dez anos atrás – num tempo da minha vida em que ainda era possível decidir, de um momento para o outro, que ia viajar durante um mês no Sudoeste Asiático.

Em Saigão, sob o efeito da percepção aguda que as viagens proporcionam, tive uma experiência decisiva e transformadora: atravessar a rua numa realidade urbana que me era inteiramente nova.

Saigon-ViaWithoutBaggageAs ruas de Saigão, a.k.a. Ho Chi Min City, via Without Baggage.

Quando se atravessa a rua em Saigão, o acto tem que ser negociado de uma forma diferente do habitual. Numa cidade sem semáforos e com milhões de scooters (como agora vim a reencontrar em Taipei) a primeira coisa que nos ensinam é que, para atravessar os antigos boulevards carregados de um fluxo de trânsito incessante, também os transeuntes não podem parar.

Quando se atravessa a rua em Saigão, temos que nos munir de coragem e avançar sempre ao mesmo passo por entre a corrente compacta de tráfego. E temos que olhar nos olhos todos aqueles que avançam para nós, para perceber se vão passar à nossa frente, ou atrás de nós.

Foi nesse momento da negociação do olhar com milhares de jovens asiáticos que nasceu a inspiração de que, mais cedo do que mais tarde, teríamos que imaginar novos modos de responder ao crescimento do urbano no século XXI.

Tal como, no inicio do séc. XX, Georg Simmel alertou para a emergência de uma nova consciência metropolitana, agora devemos preparar-nos para o estado de emergência da urbanização completa de um planeta em que os recursos, ao contrário da população, não estão propriamente a crescer de dia para dia.

E por isso vale a pena sublinhar que, depois de querer ter sido programa de televisão e documentário experimental multi-episódios, e para além do desejo de mapear de novas formas de prática arquitectónica, ou a vontade de perceber como substituir estratégias de planeamento obsoletas, este projecto é agora, apenas e só, uma investigação sobre como arquitectos e outros actores urbanos podem vir a lidar com a desigualdade e o empobrecimento progressivo de uma sociedade cada vez mais intrinsecamente global.

Under the Influence

Enquanto, para irritação certa daqueles que em Portugal se tomam como o centro da atenção, a Trienal de Arquitectura de Lisboa se abria ao mundo (aqui, ali e acolá) , eu fui antes convidado para passar pela Triennale de Milão, onde o hardcore da arquitectura portoguesa se mostra mais uma vez aos (seus) pares.

siza3Image via Bea Spoli.

Após silêncio tão prolongado deste blogue, e os inevitáveis boatos de extinção daí advindos, pensei que seria justo brindar os “meus leitores” (essa minoria insondável, entre os fiéis indefectíveis e os google translate new-comers) com o meu contributo para essa exposição que agora se abriu por terras de Itália.

Como, para minha grande desdita, a disponibilidade para o deleite da escrita se tem revelado cada vez mais escassa, também aos organizadores da exposição tive que propor uma revisita a um texto que havia escrito há precisamente quatro anos – e que aqui também deixo à mão de semear.

Felizmente, e como por sorte me sucede acontecer, a revisita não resvalou necessariamente para o plágio em casa própria, ou, em termos mais pós-modernos e legitimantes, para a mera (auto)-apropriação, mas resultou antes numa curiosa actualização da estória e dos personagens que antes inventara.

Assim, mais linkado* aqui do que o papel ou o painel permitirão, aqui fica o meu pequeno texto para a exposição Porto Poetic, para que um dia os exegetas tenham a tarefa facilitada, pelo menos no que diz respeito a descobrir conexões, referências e outras ligações obscuras que, por alguma razão misteriosa, fazem sempre parte do prazer do texto.

Regeneração Debaixo do Vulcão

Quando se fala de cultura, as figuras de referência são o que se pode chamar um benefício contraditório. Essas figuras raras – génios, talentos incontornáveis, personalidades brilhantes – dão lugar a um paradoxo que apelidarei de “debaixo do vulcão.” Quando existem figuras de reconhecimento e prestígio excepcional num determinado campo de actuação cultural, é mais que certo que o valor que se introduz nesse campo é positivo. O capital cultural, como lhe chamaria Pierre Bourdieu, eleva-se às alturas. O campo torna-se mais rico. Sob a famosa “ansiedade da influência,” cresce a exigência e, logo, a qualidade.

No entanto, a situação não é desprovida de riscos. O campo pode “paralisar” devido a um excesso de carga positiva – o que se pode evocar como o “efeito Glenn Gould.” Perante a impossibilidade de superar as mencionadas figuras de referência, o campo cede à lógica da “terra queimada,” à criação de um no man’s land onde nada cresce durante gerações. No campo da arquitectura, este efeito é deveras conhecido, associado a personagens maiores como Le Corbusier, ou Óscar Niemeyer. Após o fulgor destas figuras maiores, parece apagar-se o brilho das gerações que se lhe sucedem.

Entre estas duas vertentes pode surgir também o estado “debaixo do vulcão” – que no passado tive oportunidade de descrever a propósito da arquitectura portuguesa. Como a presença de um vulcão no horizonte próximo, escrevia, personagens como Siza Vieira ou Souto Moura originam um território fértil. No entanto, “perante a eminência permanente da devastação,” podem também gerar um estado de suspensão hipnótica. Assim, a arquitectura portuguesa contemporânea, como o vice-cônsul do famoso romance “Under the Volcano” de Malcolm Lowry, viveria “simultaneamente inebriada e deprimida.”

UndertheVolcano

 …

Perante a dificuldade de copiar Siza, ou a facilidade de copiar Souto Moura, perante a evidência da fertilidade ou a eminência do vazio, as gerações pós-Pritzkers encararam um falso dilema: continuidade ou ruptura? Essa era, pelo menos, a tónica do discurso critico que também crescera à sombra do vulcão. Contribuí para a agitação das almas, propondo que, entre esses dois pólos, duas gerações emergiriam em Portugal num curto espaço de tempo. Essas gerações não eram assim tão diferentes. Mas, como mostrado na Bienal de Veneza de 2004, manifestavam diferentes apreciações das cinzas onde prosperavam.

A geração que levava a “continuidade” para novos territórios – e que é agora re-apresentada em Porto Poetic – fez-se herdeira legítima dos mestres, permitindo-se introduzir novas influências e perspectivas no seu legado. Usufruindo da proximidade geográfica e emocional ao vulcão, pelo menos enquanto aí havia espaço, cultivaram diligentemente o  terreno fecundo deixado pelas magnas erupções do passado.       Trouxeram novos instrumentos e técnicas, importaram referências do estrangeiro ou dos campos adjacentes da arte, e garantiram que a fertilidade dava os seus frutos.

A geração que era acusada do pecado da “ruptura,” não era menos dada a gerir a fertilidade que encontrara no chão onde crescera. Porventura mais volátil e inconstante, como costuma ser apanágio da juventude que pode sê-lo, apenas precisava de mais tempo para dar uso aos talentos que lhe foram confiados. Viajaram para longe do vulcão, pensaram eventualmente em estabelecer-se noutros territórios convenientemente distantes. Voltando ou não voltando, usufruiriam, também elas, do caldo genético que o vulcão deixara nas suas terras de origem.

Revisitada esta estória, é justo dizer que o trocadilho contido no termo “re-generation” é apropriado à descrição das novas gerações de arquitectos portugueses, quer estes sejam aclamados pela “continuidade” ou pela “ruptura.” Entre vulcões e pools genéticas, a importância da herança da arquitectura portuguesa, e de Siza Vieira em particular, é mostrar que a arquitectura se faz por regeneração, miscigenação, renovação.  Como dizia o outro, parar é morrer. Portanto é preciso que cada geração construa algo novo sobre aquilo que lhe é deixado. Uma vez que se compreenda isto, tudo o mais é relativo.

Nova Iorque, Agosto 2013

Turista Acidental (Dose Dupla)

Não sei bem se por preguiça (de deixar as imagens falar) ou por necessidade (de deixar o registo ficar), sempre desejei começar aqui uma espécie de travelogue que me permitisse deixar instantâneos e impressões das inúmeras viagens que tenho vindo a fazer por “obrigação profissional.”

De regresso de Zurique, acresce, senti-me inundado por uma sensação que seria arrogante, se não fosse também sinceramente humilde: reconhecer um enorme privilégio por, entre outras solicitações, poder continuar a fazer um circuito intenso e variado de conferências um pouco por todo o mundo.

Raramente vejo as conferências como um fim em si. É certo que é bom contribuir com o conhecimento que, por alguma razão, se acumulou. Mas a secreta atração das conferências sempre foi, para mim, a possibilidade de conhecer lugares, instituições e pessoas interessantes: criar redes e acolher novas perspectivas.

ZurichZurique em versão postal ilustrado.

Na ETH de Zurique, para além de estreitar laços com uma network de Arte e Arquitectura do MIT agora espalhada pelo mundo, gratificou-me poder dialogar em palco com a fabulosa Ute Meta Bauer, alguém que apenas se pode descrever como uma referência incontornável da curadoria contemporânea.

Comentámos que, curiosamente, já nos tínhamos cruzado quando há 12 anos atrás organizámos exposições que se sucederam na agora sub-utilizada galeria da Biblioteca Almeida Garrett, no Porto – obviamente por ocasião da swan’s song da cidade que foi a Capital Europeia da Cultura de 2001.

1PostR05Post-Rotterdam, uma estreia curatorial há 12 anos atrás.

(A Ute Meta Bauer no Porto, em 2001, como outros ao longo dos anos, diz algo do talento português para identificar e trazer a casa quem está prestes a explodir na cena internacional. É de relembrar que, depois do convite de um dos nossos primeiros cultural exilées, Miguel von Haffe Perez, a Ute prosseguiu para dirigir a Documenta e a Bienal de Berlim, antes de, como tantos europeus hoje em dia, ser ela própria cativada por uma instituição americana).

Em Zurique tive a oportunidade de observar como, na última verdadeira bolha de bem-estar do território europeu, a qualidade de vida continua acima de qualquer média. E as instituições como a ETH renovam-se virando-se para fora, para esse mundo em convulsão que verdadeiramente pode beneficiar da enorme acumulação de conhecimento da Europa.

Depois de conversar com Marc Angélil, o director do Master de Urban Design da ETH, e Hubert Klumpner, dos Urban Think Tank – que após o sucesso de Veneza são agora também “residentes” na Suiça – concluí que a minha intuição estava correcta quando pensei incluir a ETH no meu próximo projecto curatorial.

Com os labs de Columbia e MIT (justamente), a ETH é a outra instituição académica que, ao lado de colectivos emergentes e ateliers locais, deverá fazer parte do grupo de participantes de Uneven Growth, Tactical Urbanisms for Expanding Megacities, a exposição que, desvele-se, está prometida para suceder a Rising Currents e Foreclosed no MoMA…

Adiante, porém, ou para trás, de Zurique para Kuwait City – que, em rigor, deveria ter correspondido ao meu falhado travelogue de Março. Eis pois outra cidade imensamente afluente que me vejo revisitar amiúde, pelo menos em memória,  quando conto a quem me quer ouvir que este foi um dos mais estranhos sítios que já se me deu conhecer.

Kuwait1Room With a View #35, 2013. 

A primeira imagem que tive do Kuwait quando acordei no meu hotel foi talvez sintomática: uma paisagem lunar e desértica, que só mais tarde compreendi ser um cemitério. Decepcionado com a ausência de urbanização galopante, pedi que me mudassem de quarto.

O Kuwait é diferente do mais mediatizado Dubai por uma razão essencial: o petróleo foi descoberto mais cedo, nos anos 30. Portanto os naturais do Kuwait consideram-se naturalmente um povo à parte, obviamente muito menos nouveau riche que os seus companheiros do Golfo.

Kuwait3aRoom With a View #36, 2013

Convidado por Zahra Ali Baba, do National Council of Culture, Art and Letters, para falar sobre plataformas de divulgação e reflexão de arquitectura, esta foi uma oportunidade para conhecer um quadrante da geopolítica política totalmente novo para mim. (Como nos livros do Tintin, não deixaria porém de deparar com mais um português “na diáspora,” um jovem arquitecto com quem, por sinal, já tinha colaborado há não muito tempo.)

Num país onde a primeira Faculdade Arquitectura surgiu há pouco mais de 10 anos, a minha lecture inclinou-se a contrapor as diferenças e semelhanças entre as possibilidades de uma prática crítica da curadoria – algo sobre o qual já é tempo de partilhar aqui um velho ensaio  – quer essa seja feita em regime free-lance, quer num âmbito mais institucional.

No entanto, a conferência – e as escassas 36 horas que passei em Kuwait City –serviram também para anotar algumas impressões sobre um mundo à parte, pelo menos enquanto o petróleo durar pelos próximos 30 anos.

Kuwait9

As poucas décadas de avanço que o Kuwait levou sobre os seus vizinhos significaram apenas que este pequeno Emirado abraçou um modelo de re-urbanização um pouco diferente das opções mais recentes. Um modelo que, no entanto, quando olhado em retrospectiva, não parece menos duvidoso.

Até aos anos 30, Kuwait City não era mais que uma aldeia piscatória adaptada às duras condições locais – i.e., a temperaturas frequentes acima de 60o centígrados. Após a passagem da II Guerra Mundial sob protectorado inglês, porém, o Kuwait decidiu-se a comprar a receita urbanística da época e dedicou-se diligentemente a erradicar o seu próprio passado.

Perseguidos os ideais modernistas de um zonamento funcional estrito,  a cidade destruída pela opção urbanística de proceder a uma rigorosa segregação social e espacial, Kuwait City parece ter sofrido mais com as suas opções urbanísticas de então do que com a destruição proveniente da invasão pelo Iraque nos anos 90. Os edifícios reconstroem-se, as comunidades não.

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A segregação espacial proposto pelas corporações arquitectónicas inglesas tiveram efeitos estapafúrdios. O centro da cidade, esvaziado de habitação, esvaziou-se também de pessoas. Encheu-se, no entanto, de automóveis que – como na Islândia, mas por razões climáticas inversas – funcionam perfeitamente como uma extensão MacLuhaniana do corpo e da roupa.

Quando a minoria da população natural do Kuwait não se encontra no ambiente climatizado do seu automóvel topo-de-marca ou do seu escritório 8-to-1, é mais que certo que se encontra num centro comercial. Parte do roteiro turístico obrigatório, em particular quando nos encontramos no paraíso da cultura franchise, os grandes shoppings de Kuwait City constituem obviamente o tipo de espaços que fazem o Colombo empalidecer para a escala das Amoreiras.

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Se o centro comercial que visitei me impressionou pela escala de cidade, logo viria a descobrir que os focos de inovação urbana de Kuwait City estavam, como seria de esperar, elsewhere. Depois de comprovado que as leis secas levam sempre ao seu oposto, seria apenas a altas horas da noite que, graças ao olhar informado do Ricardo, viria a desvendar o ‘outro lado’ do Kuwait.

Como sucede quase sempre, seria no lado mais informal da cidade, neste caso no anel urbano destinado aos imigrantes e aos expatriados, que surgiriam as mais inéditas tipologias urbanas. Num lugar onde o dia é insuportável a partir da Primavera, não deveria afinal constituir surpresa que fosse do lado da noite que surgisse a realidade urbana mais exuberante.

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Por entre a necessidade, o empreendedorismo e as típicas subversões da lei – numa cidade em que, como em Zurique, o controlo parece absoluto – a ocupação dos interstícios entre edifícios levaria a uma proliferação de pequenas unidades comerciais que, com as suas variações festivas e a distância à cultura climatizada do franchise, parecem ser a única coisa que devolve a vida a Kuwait City.

Black Friday (Confidências do Exílio)

So, I’ve enjoyed my first (discrete) Thanksgiving in New York, and today people out there are having another consumeristic frenzy – while retailers respond accordingly, namely extending shopping times and dragging underpayed labor to work on what used to be the most sacred American holiday.

Where this sacred and blind belief in consumerism will drag the U.S., I don’t know. But it does sound unpromising, specially when one knows that around 2030 we will need 2,5 planets to feed the population on Earth. In this age of interconnected global disaster, believing that one’s backyard empire will remain unaffected by such a lack of resources sounds silly and irresponsible.

This Black Friday was also the dark occasion in which I received news that my old publishers in Amsterdam, Sun Architecture, are currently holding a massive sale of their architecture titles, thus confirming the end of a beautiful, but apparently untimely editorial project.

Those were the editors that welcomed Beyond and its Short Stories on the Post Contemporary. The good news is that, if you had an interest in Beyond and were put off by its pricey cover value, you may now order the bookazine series with unique fictions by up and coming European architectural writers for only 15€!

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Yes, you have read correctly: fifteen euros for the three published volumes of Beyond at a distance of a click! A true Black Friday bargain!!!

This made me feel sad, of course. Ultimately, it’s just another episode of Europe’s anihilation of its best asset: cutting-edge cultural production.

With cultural cuts happily leading austerity measures even in the richest of countries –  and the private sector inevitably aligned with public policy – Europe takes care of its self-destruction by wiping out what could be its largest future export: intelligence, design culture, creative thinking.

Even if only for touristical purposes, production of culture in Europe was a powerful and profitable investment: beyond German engineering, European culture, as its welfare State, produced the profile and richness for which Europe was recognized, visited and looked at as a desirable model.

However, when austerity measures are the rule, culture is considered superfluous. Along the same line of thinking, Europe’s investment in higher education too is to be trashed and emulate the production of inequality and profit that is typical of the anglo-saxon education model – until that bubble also burstsand perhaps demonstrates that there is nothing really interesting to emulate in such a model.

One wonders if the desinvestment in a democratic access to education is part of an invisible class war, or if it is solely a pragmatic response to the fact that, after all, higher education in Europe only contributed to produce its most cultured ‘lost generation’ ever…

It’s not only in the South European countries, and not only amongst its young, however, that Europenas are faced with the dilemma of either unemployment or self-imposed exile, i.e, choosing emigration as a way of escaping recession (and its silent partner depression).

I’ve landed in MoMA because I felt I had to look for alternatives – thus enjoying the privilege of spending a terrible period for Portugal in a golden exile. Recently, though, previous directors of publishing ventures such as Actar in Barcelona, or, alas, Sun Architecture in Amsterdam, were also welcomed by Montreal’s Canadian Center for Architecture.

Many others are probably looking for similar opportunities, and, like in other historical periods, the New World gladly takes in the European talent. In other historical periods, nonetheless, there were profoundly serious reasons for the exodus of European creative minds: racial prosecution and a World War.

Now, however, while we hear that if the European Union was one nation its achievements in the Olympics would have tripled the U.S. – and as if announcing Europe’s unfortunate and miserable decline –  the only reason for the new exodus seems to be stupidity, and a definitive lack of political vision.