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Under the Influence

Enquanto, para irritação certa daqueles que em Portugal se tomam como o centro da atenção, a Trienal de Arquitectura de Lisboa se abria ao mundo (aqui, ali e acolá) , eu fui antes convidado para passar pela Triennale de Milão, onde o hardcore da arquitectura portoguesa se mostra mais uma vez aos (seus) pares.

siza3Image via Bea Spoli.

Após silêncio tão prolongado deste blogue, e os inevitáveis boatos de extinção daí advindos, pensei que seria justo brindar os “meus leitores” (essa minoria insondável, entre os fiéis indefectíveis e os google translate new-comers) com o meu contributo para essa exposição que agora se abriu por terras de Itália.

Como, para minha grande desdita, a disponibilidade para o deleite da escrita se tem revelado cada vez mais escassa, também aos organizadores da exposição tive que propor uma revisita a um texto que havia escrito há precisamente quatro anos – e que aqui também deixo à mão de semear.

Felizmente, e como por sorte me sucede acontecer, a revisita não resvalou necessariamente para o plágio em casa própria, ou, em termos mais pós-modernos e legitimantes, para a mera (auto)-apropriação, mas resultou antes numa curiosa actualização da estória e dos personagens que antes inventara.

Assim, mais linkado* aqui do que o papel ou o painel permitirão, aqui fica o meu pequeno texto para a exposição Porto Poetic, para que um dia os exegetas tenham a tarefa facilitada, pelo menos no que diz respeito a descobrir conexões, referências e outras ligações obscuras que, por alguma razão misteriosa, fazem sempre parte do prazer do texto.

Regeneração Debaixo do Vulcão

Quando se fala de cultura, as figuras de referência são o que se pode chamar um benefício contraditório. Essas figuras raras – génios, talentos incontornáveis, personalidades brilhantes – dão lugar a um paradoxo que apelidarei de “debaixo do vulcão.” Quando existem figuras de reconhecimento e prestígio excepcional num determinado campo de actuação cultural, é mais que certo que o valor que se introduz nesse campo é positivo. O capital cultural, como lhe chamaria Pierre Bourdieu, eleva-se às alturas. O campo torna-se mais rico. Sob a famosa “ansiedade da influência,” cresce a exigência e, logo, a qualidade.

No entanto, a situação não é desprovida de riscos. O campo pode “paralisar” devido a um excesso de carga positiva – o que se pode evocar como o “efeito Glenn Gould.” Perante a impossibilidade de superar as mencionadas figuras de referência, o campo cede à lógica da “terra queimada,” à criação de um no man’s land onde nada cresce durante gerações. No campo da arquitectura, este efeito é deveras conhecido, associado a personagens maiores como Le Corbusier, ou Óscar Niemeyer. Após o fulgor destas figuras maiores, parece apagar-se o brilho das gerações que se lhe sucedem.

Entre estas duas vertentes pode surgir também o estado “debaixo do vulcão” – que no passado tive oportunidade de descrever a propósito da arquitectura portuguesa. Como a presença de um vulcão no horizonte próximo, escrevia, personagens como Siza Vieira ou Souto Moura originam um território fértil. No entanto, “perante a eminência permanente da devastação,” podem também gerar um estado de suspensão hipnótica. Assim, a arquitectura portuguesa contemporânea, como o vice-cônsul do famoso romance “Under the Volcano” de Malcolm Lowry, viveria “simultaneamente inebriada e deprimida.”

UndertheVolcano

 …

Perante a dificuldade de copiar Siza, ou a facilidade de copiar Souto Moura, perante a evidência da fertilidade ou a eminência do vazio, as gerações pós-Pritzkers encararam um falso dilema: continuidade ou ruptura? Essa era, pelo menos, a tónica do discurso critico que também crescera à sombra do vulcão. Contribuí para a agitação das almas, propondo que, entre esses dois pólos, duas gerações emergiriam em Portugal num curto espaço de tempo. Essas gerações não eram assim tão diferentes. Mas, como mostrado na Bienal de Veneza de 2004, manifestavam diferentes apreciações das cinzas onde prosperavam.

A geração que levava a “continuidade” para novos territórios – e que é agora re-apresentada em Porto Poetic – fez-se herdeira legítima dos mestres, permitindo-se introduzir novas influências e perspectivas no seu legado. Usufruindo da proximidade geográfica e emocional ao vulcão, pelo menos enquanto aí havia espaço, cultivaram diligentemente o  terreno fecundo deixado pelas magnas erupções do passado.       Trouxeram novos instrumentos e técnicas, importaram referências do estrangeiro ou dos campos adjacentes da arte, e garantiram que a fertilidade dava os seus frutos.

A geração que era acusada do pecado da “ruptura,” não era menos dada a gerir a fertilidade que encontrara no chão onde crescera. Porventura mais volátil e inconstante, como costuma ser apanágio da juventude que pode sê-lo, apenas precisava de mais tempo para dar uso aos talentos que lhe foram confiados. Viajaram para longe do vulcão, pensaram eventualmente em estabelecer-se noutros territórios convenientemente distantes. Voltando ou não voltando, usufruiriam, também elas, do caldo genético que o vulcão deixara nas suas terras de origem.

Revisitada esta estória, é justo dizer que o trocadilho contido no termo “re-generation” é apropriado à descrição das novas gerações de arquitectos portugueses, quer estes sejam aclamados pela “continuidade” ou pela “ruptura.” Entre vulcões e pools genéticas, a importância da herança da arquitectura portuguesa, e de Siza Vieira em particular, é mostrar que a arquitectura se faz por regeneração, miscigenação, renovação.  Como dizia o outro, parar é morrer. Portanto é preciso que cada geração construa algo novo sobre aquilo que lhe é deixado. Uma vez que se compreenda isto, tudo o mais é relativo.

Nova Iorque, Agosto 2013

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Short-Circuit

With the New Year always come new – often old – resolutions. I’m going to eat less, I’m going to love my dear ones even more, I’m going back to reading a book, I’m going to seize the day again. Even if we know structural change at a personal level does not come easy, we still believe we are going to change for the better.

As I woke up too early in a non-descript hotel in Houston with yet no clear image of the city, and as my early morning brain activity slowly drifted from the lecture I’m going to deliver today to all the things I ought to be writing and I am not, I decided to take action.

After all, as I still remember it, there was a time, before children, in which early morning insomnia proved to be quite productive, as opposed to clinging on to a mirage of a little more sleep.

As a late New Year’s resolution I decided I should find a way to keep this blog awake. I should write at least once a month. It would be a pity* not to do so.

Actually, as a reader, I’ve always hated those moments in which, just after writers had built up an audience out of an apparent, committed generosity, suddenly they would abandon their personal-public forum like some unwanted pet.

The death of personal blogs normally comes with a sudden professional change, such change most surely having being produced by the public success of the writer’s own writing. This is an understandable short-circuit that normally comes with lame apologies for not keeping one’s blog up-to-date, and so on.

On top of it, if you want to keep your new professional life apart from your personal views of the world, and if your new professional life is not only overwhelming, but also feeds on your personal views of the world, then you have a hard time finding an appropriate context for writing – even if you already had the ideal medium for it.

The difficulty to find a time and a space to continue an activity that you’ve always cherished as structural to your mental wellbeing is obviously problematic. And when a professional 9 to 5 takes over, this is particularly notorious.

Even if you consider yourself privileged because your 9 to 5 is dynamic and intellectually challenging, there is still something about constantly answering emails – or to be expected to do so – that arrests your capacity to embrace the kind of free association, and associated creative drive, that comes with writing.

Writing, as we know, requires not only time to produce the actual writing, but also a certain disposition to produce the thinking. You may find a way to accumulate or annotate fragments of thoughts in between meetings, airports or subway rides, but you also need a moment in which you have time to waste in an almost scandalous fashion: time to wander, time to wonder, time to wait for ideas to come together.

When you move from a free range of freelance activities that still leave you time to waste, to become focused on one specific, overwhelming professional endeavor, you risk loosing the creative edge that comes with writing and thinking. One always thinks there will be ‘creative retreats,’ or moments in which you will simply disconnect, but that tends simply not to be true, at least within the productivity-driven realm of the bureau-sphere.

Traveling, especially when it involves long distances, does provide an escape. Not only because of the disruption of routines, and the abrupt change of context, but also because it creates these moments of inevitable disconnection. A long plane ride provides the space for writing, or for catching up on something, precisely because, for a few hours, you are not obsessively connected.

Of course, writing is still a strong part of my activity as a curator on a top museum institution. This writing, however, tends to be confined to strict professional goals: project proposals, briefs, press comments, interviews, exhibition texts.

Furthermore, for objective, or sometimes pedagogic purposes, such pieces of writing tend to undergo a process of de-subjectification that, for me, excludes them from what I consider to be a practice of writing. (Try out podcast #4).

I will be already totally happy if a set of ideas I’m proposing for a small exhibition text does survive and gets transmitted to the audience – after a process in which at least three of my colleagues roam about, question, edit, and profoundly rewrite any text I submit. In any case, I’ve definitely buried the illusion, or the misconception that you can produce a subjective text in a museum context.

Curiously, when François Roche was walking through 9+1 Ways of Being Political the other day, he did identify that the graphic device through which the exhibition texts were presented involved some kind of self-sabotage, which might relate or not to the issues I’m raising here.

Although I was thriving to communicate ideas with a certain clarity – as I’ve always aspired to, but have not necessarily always achieved – in his opinion I had purportedly welcomed an ‘unfriendly’ graphic layout…

iconoclasm2

I would say that this iconoclasm, or logoclasm (‘not a valid Scrabble word’), unconscious as it may have been, was not however related to my own struggles with going back to writing. It would rather relate to the notion that, although I have as primary goal to communicate ideas to an audience, I don’t necessarily want to consider that audience passive.

I believe there is a certain amount of thinking the viewer should be doing. You don’t want things to be too easy. For that you have television. So, having people getting across a layer of dynamic, ‘unfriendly’ graphics – or across unexpected juxtapositions of art and architecture works, or even across untypical ideas in a museum context – hopefully means that I have an engaged reader. Which makes sense when we’re talking about a political show.

In any case, these notions of short-circuit or self-sabotage are interesting in themselves. Just as they are an interesting means to contradict or implode an inevitable, embracing bureaucracy in practically every realm of contemporary human activity, they may also represent a productive tool in order to overcome the most personal of impasses.

Just as they were at the core of the never published 4th issue of Beyond, on Failures and Accidents, these notions of short-circuit and self-sabotage actually make me go back to an idea I’ve briefly played with in the past, when writing in this same blog.

This was the perverse idea that once this writing forum had fulfilled its initial purpose – i.e. to establish a connection to a world beyond the confines of my own native language – I could simply, one day, and right in the middle of a sentence, switch back to português. Precisamente. Assim mesmo. A meio de uma frase.

Agora que me encontro numa espécie de exílio dourado – ainda que de refulgência  mate – parece apropriado, e particularmente devedor da audiência portuguesa que ajudou a suster este blog, que a língua-mãe se torne de novo no meu refúgio e escape.

Embora o português escrito não seja tão impenetrável como o português falado – criando essa estranha impressão de que, quando se fala em português na maior parte do mundo, e por vezes até no mundo de língua portuguesa, se faz parte de uma seita secreta –, a sua adopção neste contexto pode permitir resolver essa distância que quero guardar entre o mundo professional que agora vivo e esses outros mundos que posso revisitar através destes estilhaços de escrita ocasional.

Esperemos que esta seja uma resolução de novo ano que está aqui para ficar.

A Few Months Later

LA Block © Pedro Gadanho. From an upcoming travelogue series.

“A few months later I was living in Taos, New Mexico, on another mesa, this time in an earthship with a stonemason friend I picked up along the way. People say that earthships are the most ecologically sustainable housing thus far created – built halfway into a hill so the earth does the heating and cooling and the temperature stays around 70 all year, with big south-facing greenhouse windows and raised garden beds inside, a grey water recycling system, and windows on either side of the long corridor so the wind blows through. And somehow, when you’re inside, looking up at the big blue sky and the castle-like clouds drifting by, you actually feel like you are in a ship, moving like a giant worm across the desert. New Mexico’s rotten nepotistic bureaucracy inspires complete distrust, and therefore people are more motivated to create local community and generally do as they please. It’s liberating, actually. Such places are known by earthship-builders as “pockets of freedom” – areas where building codes are not enforced, and therefore people are free to experiment and evolve with their houses and their lives, instead of being told what to do by the government. Code housing is expensive and it’s not necessarily what people want or need. Why not let them choose? My neighborhood had a pyramid, a castle made of tin cans, more earthships, yurts, teepees, domes, windmills, Star Wars-like pods, chickens, goats, llamas, and packs of dogs.”

    Samara Reigh, in Earthship New Mexico,         ……….The Brooklyin Rail, June 2012