Pancho Guedes, Ecos de Uma Modernidade Alternativa

Pancho Guedes pode melhor ser descrito como um meteorito.

Irrompeu brilhante, aterrou num sítio inóspito e exótico, gerou surpresa e espanto, lançou ondas de choque entre os estudiosos e especialistas e, depois, como por vezes acontece, foi caindo no esquecimento, entre a transformação da memória em mito e o abandono progressivo dos traços físicos que deixou espalhados pelo território.

Quem hoje visita Maputo, antes Lourenço Marques, descobre ainda esses traços – agora apropriados pela população, e deformados pela história, mas, afinal, ainda prontos a revelar a resistência e a graça que só uma arquitectura forte e adaptativa poderia oferecer.

Entre os círculos internacionais mais especializados, só alguns recordam ainda o fenómeno e as repercussões que ele gerou. Pancho Guedes permanece assim como um momento luminoso e excepcional que, como alguns outros ao longo do século XX, reverbera ainda os ecos de uma história que poderia ter sido moldada de forma diferente.

Mas a história revê-se e retoma por vezes as suas pontas perdidas, e, assim, a memória e as consequências do impacto de Pancho Guedes são de novo alvo de interesse e curiosidade.

Recuperam-se, então, os ecos da época; analisam-se os restos arqueológicos; estabelecem-se novas conjunturas; enfim, revê-se a continuidade da história segundo a lógica do acontecimento excepcional.

Como ele mesmo gosta de dizer, ao longo de 25 anos Pancho Guedes construiu o suficiente para perfazer uma cidade de tamanho médio. Esta actividade efervescente aconteceu em Moçambique – uma localização remota e improvável pelos standards eurocêntricos e ocidentais – entre 1950 e 1975, enquanto o mundo crescia eufórico até à queda anunciada da modernidade económica e cultural como esta era conhecida até então.

Do percurso deste arquitecto português educado e formado em África sobressai uma obra excêntrica e idiossincrática que, logo e especialmente nos anos 50, garantiria a Pancho Guedes um lugar cativo na história irregular das excepções ao modernismo arquitectónico mais canónico. Como o provam Simon Sadler ou Timothy Ostler nestas mesmas páginas, a obra de Pancho Guedes é naturalmente referenciável em termos das suas influências, contextos e conexões. Trata-se aqui da redescoberta de atitudes e valores arquitectónicos que a história, com frequência, insiste em esquecer ou obliterar.

Para além deste mapeamento, porém, o melting pot criativo redescoberto na obra de Pancho Guedes revela também que o seu carácter meteórico conteve algo de profético relativamente aos destinos da modernidade ocidental.

O personagem e percurso de Pancho falam-nos, assim, não só das alternativas pontuais ao modernismo arquitectónico vigente a partir do pós-guerra, mas evocam também a revisão progressiva dos traumas e idiossincrasias da ideia de modernidade.

Com alguns outros personagens singulares e meteóricos, Pancho Guedes é, assim, um dos mais reveladores proto-pós-modernos dos meados do século XX.

As influências de Pancho Guedes no campo arquitectónico, por exemplo, são situáveis num arco de referências modernas que vão de Horta a Gaudi ou de Wright a Le Corbusier. Em cada um destes mestres, Pancho procura os aspectos orgânicos que se opõem às tendências mais racionalistas do Movimento Moderno – tal como nos âmbitos mais alargados do Expressionismo, do Surrealismo ou do Dada encontra as suas fontes de inspiração declaradas no universo artístico.

Por entre estas conexões, o apetite voraz e aberto pela informação e a vocação artística criam a predisposição para uma criatividade atípica.

Os contextos em que Pancho se move dividem-se, por outro lado, entre a atmosfera cultivada dos primeiros questionamentos do modernismo – na sua escola de formação na África do Sul – e o ambiente híbrido e multicultural de uma cidade colonial algo caótica no seu súbito florescimento. Entre as contradições destes dois universos, definem-se as condições para a atitude irónica e lúdica com que Pancho recusa respostas tipificadas e unívocas perante os desafios habitualmente colocados aos arquitectos.

Enquanto os seus colegas que iam chegando de Portugal encontravam em África a oportunidade e a liberdade para experimentar e afirmar um modernismo reprimido pelo regime fascista da motherland, Pancho encontrava-se já num estádio mais avançado de cruzamento de diferentes universos culturais.

As ligações que, entretanto, Pancho estabelecerá com o mundo arquitectónico mais vasto – da proximidade ao americano Bruce Goff à integração no Team 10, do reconhecimento de Reyner Banham ao acolhimento de André Bloc – limitar-se-ão a confirmar que a sua obra e postura são, em todo o caso, difíceis de classificar e integrar, mesmo no âmbito das revisões mais radicais da modernidade. O Team 10, por exemplo, acolhe plenamente a sua energia, o seu dinamismo e a sua acutilância crítica, mas acabará por revelar dificuldades em aceitar o seu eclectismo vibrante e provocatório.

De modo semelhante, o sucesso da sua recepção nos meios especializados do fim dos anos 50 é brilhante mas fugaz, e as mais declaradas – ou as mais subconscientes – apropriações da sua herança ficarão reservadas à arquitectura Pop e utópica dos anos 60, aos pós-modernistas dos anos 70 e 80, ou, até, à blob architecture e ao retro-futurismo dos anos 90.

Como, à sua maneira, aconteceu com Goff e alguns poucos outros, a singularidade da mistura criativa de Pancho Guedes assegurará, afinal, a continuidade de uma abordagem formal e espacial da arquitectura que, sendo claramente minoritária durante a vigência do Movimento Moderno, assume uma das vertentes fundamentais da modernidade at large: o seu lado expressionista, barroco e orgânico.

Neste aspecto e dentro do universo arquitectónico, Pancho Guedes é, por excelência e circunstância, um verdadeiro modernista alternativo. Para além disto, porém, como já dissemos, a obra de Pancho oferece também os ecos premonitórios de uma modernidade alternativa que, no fundo, é hoje aquela em que nos encontramos.

Na sua dimensão cultural mais abrangente, a obra de Pancho é antecipatória de vários retornos que virão a marcar de um tempo que talvez, mais que pós-moderno, seja mesmo alter-moderno.

Em plena hegemonia do Estilo Internacional, a arquitectura de Pancho anuncia o retorno à diversidade estilística enquanto estratégia criativa e até enquanto resposta às necessidades do sistema do consumo. Não será por acaso que os vários estilos arquitectónicos de Pancho Guedes correspondem a uma resposta à diversidade de necessidades e condições expressas por clientes e circunstâncias.

Com Pancho estamos em África, perante situações de grande assimetria económica e cultural e não há estilo uno ou coerente que possa responder a esta condição. Estamos, no mínimo, entre dois mundos e, à excepção de um possível regime de imposição colonial, não há modernismo ocidental que possa oferecer uma resposta única a esta realidade ainda hoje contraditória.

Entre os estilos mais pessoais e a deriva irónica de uma resposta sem vergonha às aspirações mais recônditas e arquétipais dos destinatários, encontra uma alternativa para o esgotamento dos modelos oferecidos por uma cultura moderna uniformizante. Entre o aproveitamento inteligente das técnicas e capacidades locais e a aceitação de condições económicas primárias, Pancho Guedes abre o caminho para uma arquitectura verdadeiramente contextual e multicultural.

Neste sentido, Pancho antecipa genuinamente uma forma de regionalismo crítico e, no entanto, é também naturalmente inclassificável no âmbito da leitura crítica que esta tendência veio a adquirir sob Keneth Frampton. De facto, a obra de Pancho desmonta igualmente o dispositivo ideológico que transforma o regionalismo crítico numa nova definição de estilo, destafeita de conotações tardo-modernas minimalistas ainda mais restritas.

A diversidade estilística da obra de Pancho Guedes – assumida num registo irónico de fervor classificatório que lembra a inocência da descoberta antropológica dos séculos XVII e XVIII – ilude os consensos estabelecidos em torno de um estilo que pretende representar a unidade – e a imposição – da modernidade ocidental.

Neste sentido, a obra de Pancho alude directamente àquilo que teve que ser reprimido na cultura moderna para se obter um consenso e uma disseminação alargados. Que, em registo de plena antecipação, a obra de Guedes aluda, assim, ao chamado retorno do reprimido pode ser explicado por alguns factores específicos.

Em primeiro lugar, Pancho vive o isolamento e a liberdade relativos do continente africano nos anos 50. Porque o reprimido é aqui de natureza claramente colonial, aquilo que é reprimido não desaparece nunca inteiramente. Como Michel de Certeau poderia sugerir, o reprimido é aqui irreprimível: permanece presente em diferenças culturais impossíveis de amalgamar.

Trabalhando a partir da informalidade da periferia, Pancho abraça e sobrepõe essas diferenças e começa a produzir um desvio estilístico que seria inaceitável num contexto – o centro – onde o policiamento das fronteiras do reprimido se encontrava mais claramente em acção.

Obviamente existiam canais de comunicação entre periferia e centro e Guedes era particularmente cioso da informação que consumia – algo que lhe chegava abundante e actual dos centros mais exigentes. No entanto, porque o consumo de informação de Pancho era maioritariamente mediado, também aqui ocorre um fenómeno que antecipa algo só mais tarde se tornará corrente: a mediação garante um distanciamento crítico, uma visão de conjunto que, frequentemente, se perde no núcleo emissor.

Culto, perspicaz e aberto, Pancho apercebia-se, à sua maneira, das pequenas hegemonias que iam produzindo a normalização da modernismo. Em seguida, e como diria Alison Smithson, Pancho reage, pela sua natureza irreverente, com uma gargalhada na voz.

No riso de Pancho encerra-se uma qualidade naïf, mas também a ironia cultivada que lhe permite contornar com à-vontade a existência concreta de um reprimido. Entre a sensibilidade ao primitivismo mágico que o rodeia em África e a exploração livre do inconsciente que lhe vêm dos Surrealistas, entre a liberdade de uma atmosfera acrítica e o cosmopolitismo aberto de um homem do mundo, Pancho reúne características singulares que lhe permitem momentaneamente libertar-se da aura racionalista da modernidade.

Entre Picasso e Freud, entre Lourenço Marques e Londres, Pancho volta à infância da cultura moderna e projecta-a para o futuro com a liberdade de quem lhe conhece o inconsciente e os traumas. A liberdade artística que Pancho Guedes reclama para a sua arquitectura remete-o, de facto, a um tempo anterior ao seu, a um momento em que as orientações da modernidade se encontravam ainda em plena efervescência, e, ao mesmo tempo, projectam-no para um futuro ainda relativamente distante, o momento em que o chamado pós-moderno se limitaria a revelar um regresso às raízes dispersas e recalcadas da modernidade.

Isto aconteceu durante um momento relativamente curto, durante os anos 50, antes de o próprio Pancho se deixar enredar pela economia racionalista e os constrangimentos formais da modernidade. Mas esse breve momento foi suficientemente intenso para garantir a Pancho Guedes um lugar cativo na história da arquitectura do século XX.

No seu carácter mais exuberante e expressivo, a arquitectura de Pancho escapa alegremente à tarefa moral a que o modernismo arquitectónico se tinha dedicado de forma consciente e empenhada: a exclusão do simbólico, o repúdio do ornamento, a repressão do ecléctico.

Na sua descoberta da diversidade cultural africana, Pancho dá as boas vindas à dimensão simbólica e ritual da cultura material, acolhe o animismo das superfícies e das formas e concede-se a liberdade de experimentar na linguagem que mais lhe aprouver.

Deste modo, no seu Stiloguedes, Pancho vai cruzar o racionalismo e o rigor estrutural da cultura ocidental com a dimensão mágica e orgânica da simbologia africana. O que, nos inícios do moderno, fora condenado como crime – o ornamento – retorna então como uma dimensão simbólica praticamente perdida da arquitectura ocidental. E para que serve essa dimensão simbólica? Simplesmente para providenciar referenciais para uma criação de identidade, para uma apropriação por parte dos destinatários que, entretanto, se dissipara na especialização a que as linguagens arquitectónicas foram conduzidas.

Uma vez que a especialização se traduziu em estilo, é por via do estilo, também, que Pancho oferece a via para a inversão dessa tendência. O seu eclectismo surge, então, já não como a derivação estilística que no século XIX suscitara as reacções desesperadas dos primeiros proto-modernistas, mas como uma forma de reaprendizagem das linguagens possíveis da arquitectura.

Como classicamente sugeriu Picasso, depois da aprendizagem da especialização, requer-se uma desaprendizagem que permita o emergir uma linguagem verdadeiramente criativa, verdadeiramente adequada às necessidades expressivas de criador e consumidor. Precocemente, Pancho Guedes assume, então, um eclectismo que no regime do modernismo cultural dos meados do século XX o tornará persona non grata – excepto junto daqueles que procuraram também alternativas a essa racionalização e uniformização do moderno de que falou Henri Lefébvre.

Finalmente, na sua hibridização de culturas, Pancho Guedes sugere, ainda, um outro retorno importante: o retorno do Outro. Imerso na cultura do verdadeiro Outro da cultura ocidental – aquele sob cuja repressão se dá grande parte do crescimento da modernidade europeia – Pancho Guedes é dos primeiros a abrir-se à cultura africana e a deixar que ela coloque em questão as certezas da cultura eurocêntrica. Como um antropólogo que não resiste a amar o objecto da sua atenção, Pancho torna-se permeável aos aspectos mágicos e aos feitiços da cultura africana e, com isto, rompe a própria aura racional e estruturalista da sua cultura de origem. O Outro é aqui o espelho deformante perante o qual se estilhaça a imagem pristina que a cultura ocidental faz de si própria. Em face destas evidências, é justo que sejamos nós quem agora retorna a Pancho Guedes.

Pedro Gadanho, Lisboa, Setembro 2007