Arquivo de Ficção

Enquanto descubro por acaso que um dos meus últimos artigos, Pimp Up Your Cart – Notes and Fictions on Instant Vendor Urbanism, já está parcialmente online – mesmo antes de sair o livro ao qual se destinava – penso que talvez seja tempo de actualizar o arquivo dos textos que vou guardando e expondo por aqui.

Quando o presente nos ocupa excessivamente com as praticalidades do management, nada como esquadrinhar no passado para redescobrir umas pérolas de pensamento (em roda) livre. Como se dizia num dos fracturantes títulos já aqui arquivados, Cada Escavadela uma Minhoca.

Averso aos circuitos insidiosos da legitimação académica cada vez mais boring e tecnocrata, sempre gostei de contribuir para revistas mais ou menos obscuras, fanzines, publicações de estudantes ou até magazines de life-style.

Mais que para as ditas revistas sérias, com os seus monótonos resultados de pesquisa pseudo-científica, a sua crítica enjoada* e os seus encenados peer-reviews, sempre preferi ensaiar o gospel experimental e despreocupado que mais se adequava a revistas não propriamente arquitectónicas.

Assim, já depois de passada a torrente de elegias fúnebres dedicadas a Oscar Niemeyer, ocorre-me recuperar um desses artigos de revista leves e espirituosos, que possivelmente constitui a celebração crítica mais justa da energia subversiva que emanava dos inimitáveis gestos arquitectónicos do arquitecto brasileiro.

De resto, regresso a Niemeyer depois de ter visto as imagens de Todd Eberle aquando do lançamento do último número da revista Wallpaper* aqui em Nova Iorque. Um desses momentos socialite que, em jeito de festa de aniversário da minha mulher, me vai fazendo lembrar de morder a Big Apple…  pelo menos de vez em quando.

Todd Eberle_Architecture_10

Em jeito de presente de São Valentim…. Imagem via Todd Eberle.

A minha elegia ao OVNI de Niemeyer foi publicada na LAMag, uma revista que desapareceu sem rasto, inclusive dessa internet que erradamente tomamos como duradoura. É uma peça que vejo como um exemplo possível de crítica arquitectónica explicada às crianças – ou aos não-iniciados, o que resulta precisamente na mesma coisa.

Como tenho dito em conferências, apesar de admirar a enorme herança intelectual de Manfredo Tafuri – e a sua capacidade de praticamente sozinho ter criado um magnífico impasse da crítica arquitectónica, particularmente deste lado do Atlântico – sou cada vez sou mais um fan confesso de Reyner Banham.

Como se pode descortinar em Pimp Up Your Cart, nos escritos de Banham, como nos seus contributos mais extravagantes noutros media, gosto do modo como, com uma verve exuberante e imparável, o crítico submerge os temas arquitectónicos na comemoração irónica e selvagem do quotidiano mais banal.

Nesta era de capitalismo tardio e neo-liberalismo assanhado, onde parecem desmoronar as esperanças de a seriedade intelectual se oferecer como uma alternativa viável, a sátira total é, mais uma vez, uma das possibilidades honestas de assumir esse dark optimism de que ouvirão falar em breve.

Esta atitude irónica – que, apesar de tudo, recusa o cinismo – é, de resto, uma das formas mais habituais como, apesar da eventual estranheza, a ficção se infiltra e entranha na realidade como uma espécie de reduto político.

Como se diz no início de Reyner Banham Loves Los Angeles sobre a extraordinária antecipação do GPS em versão guia turístico, há ficções que são úteis. Algo de tão mais verdadeiro quando se quer pensar sobre o futuro a partir da reflexão do presente.

Ideias a revisitar à medida que a ficção vai invadindo o campo arquitectónico

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