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On Not Writing / Sobre Não Escrever

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If I’m on a confessional mood I will sometimes tell you that the practice that underlies all my other practices is writing. For biographical reasons, the practice of writing – a thorough, disciplined practice complete with reading extensively about writing itself – came to me before architecture, curating, or even architectural writing. So, when I’m doing architecture, there is a literary, narrative vein that inevitably emerges from and within the design. If I’m curating, I tend to consider that the whole endeavor of researching and organizing a theme is but a preparation for writing a curatorial essay that will represent my findings and conclusions on the given subject. And if I’m about to start a piece of architectural criticism, my preoccupation does not lie exclusively with the object at hand, but also with how to construct the text itself as an autonomous, self-sufficient, innovative piece of writing.

Este é o inicio de um novo ensaio sobre escrita arquitectónica, que acabei de enviar para publicação na revista austríaca GAM#11 – Archiscripts. É uma peça confessional e autoanalítica onde defendo que a escrita sobre a arquitectura deve construir a sua autonomia contra a autonomia da disciplina arquitectónica.

O tema não é novo, mas nunca é demais reivindicar a não-subserviência. O que eu não digo nesse texto é que a sobrevivência da escrita sobre arquitectura pode depender, em última instância, da sua libertação de um objecto que, sem querer generalizar, está a passar por uma fase muito pouco estimulante.

Enquanto o mundo em geral se revela sempre mais igual a si próprio – com guerras fraticidas, crises de saúde e vagas de mortos a invadir insistentemente o domínio tradicional da silly season – o mundo da arquitectura revela-se cada vez mais aborrecedor, talvez com isso anunciando a sua verdadeira insignificância.

Se o mundo da arquitectura está “nas bocas do mundo” é pelas razões erradas. Enquanto o New York Times se decide a pedir a cabeça dos arquitectos-estrela – que é o mesmo que pedir uma arquitectura que clame por menos atenção, que seja mais obediente e apagada – a única tempestade que parece atravessar o cenário arquitectónico contemporâneo é uma não-polémica.

Que Zaha Hadid tenha ou não compaixão pelos trabalhadores explorados nas obras faraónicas que vai fazendo para autocratas iluminados, parece ser uma questão bastante irrelevante para os destinos da disciplina arquitectónica. Que a diva processe judicialmente um crítico que lhe ousou fazer frente é ainda mais mesquinho e insignificante. Mas gera conversa.

DameZahaZaha Hadid, fotografada por Steve Double, via Compass.

Por outro lado, é significativo – mas igualmente menor – que a última celeuma verdadeiramente arquitectónica tenha partido do sócio e porta-voz de Hadid, Patrick Schumacher. Como aludi no meu texto para Homeland (a representação portuguesa numa Bienal de Arquitectura de Veneza que também falhou gerar repercussões), a diatribe de Schumacher em prol da forma arquitectónica sem conteúdo (ético, conceptual, ou outro) é tão destituída de inteligência que só sublinha o enorme vazio que se instalou no campo.

Ou eu estou extremamente desatento e desinformado, ou não se passa mesmo nada de importante na arena arquitectónica, usualmente tão sanguinária e suculenta. Mesmo se ainda mandam umas bocas, as velhas vozes que gostavam de jogar o jogo da autoridade cansaram-se e calaram-se; os críticos mais lidos adoptaram causas sociais e beneméritas absolutamente anódinas; as revistas académicas balbuciam para uma audiência inexistente; a web debita obedientemente um maintsream cada vez mais igual a si próprio.

Lembra-me a frase de uma ex-namorada anglófila: I’m bored, I’m the chairman of the bored.

Em desespero de causa, subscrevi uma nova newsletter, que em vez dos press-releases a que nos habituámos nos mais populares meios arquitectónicos da internet, coleciona resumos de artigos de revistas e jornais. Mas mesmo a ArchNewsNow parece manifestar, ainda mais veementemente, como o discurso crítico que por aí anda é bastante inofensivo e inconsequente.

Conselhos sobre como evitar a etiqueta de “greenwashing” para arquitectos que ainda não perceberam que a “resiliência” já há algum tempo substituiu a “sustentabilidade” (obviamente apenas enquanto termo a não esquecer nas suas apresentações powerpoint), não soa propriamente a um avanço crucial no território do conhecimento arquitectónico.

Inventar o termo “goodwashing” para classificar a última viragem relevante do campo arquitectónico pode ser espirituoso e cool, mas não parece corresponder a mais do que chover no molhado do ano passado. Mas sempre é mais sólido do que voltar à velhíssima história do fachadismo, ou discutir a ideia peregrina, mas porventura sarcástica, de começar a desenhar as nossas cidades para as crianças. Não o fazemos já?

Talvez o problema desta newsletter seja a sua focalização no mundo anglo-saxónico, mesmo se este é o único em que a arquitectura tem uma presença regular nos media generalistas. Porém, como tenho dito a quem me quer ouvir, o mundo anglo-saxónico é também aquele no qual, com mais virulência, se pode adivinhar a morte da arquitectura por doses venenosas de tédio.

Nova Iorque, por exemplo, é suposto ser uma cidade excitante. Isso implicaria uma certa vibração nos seus meios criativos. E, no entanto, é difícil vislumbrar qualquer aspecto inovador na cena arquitectónica local.

Afundados em dívidas escolares e na inevitabilidade de fazer do dinheiro a sua única prioridade, os arquitectos nova-iorquinos ou americanos não podem senão aspirar a integrar o mais depressa possível as fileiras de uma produção corporativa absolutamente deprimente.

Talvez por isso, na exposição de novas aquisições de arquitectura contemporânea que recentemente inaugurei no MoMA apenas três equipas de arquitectos são de Nova Iorque e, entre esses, apenas um deles, os MOS Architects de Michael Meredith e Hilary Sample, são verdadeiramente um produto do sistema americano. Os outros são europeus ou asiáticos a procurar sobreviver num contexto global.

CoSEsq.: Vídeos de MOS Architects em Conceptions of Space, MoMA, 2014.

Enquanto jovens, os arquitectos americanos bem podem ambicionar mostrar uma veia experimental – como, de resto, já escrevi sobre o concurso de talento emergente que o MoMA e o MoMAPs1 promovem aualmente, o Young Architects Program. Porém, essa aptidão para a inovação cedo se reduz a práticas tendencialmente artísticas, como são um bom exemplo os Snarkitecture ou os Bittertang – ou depressa é engolida por uma realidade tecnocrata avassaladora.

Por comparação aos Estados Unidos, a arquitectura europeia no seu conjunto parece um paraíso fervilhante de ideias e novas tendências. Mesmo com crise e perspectivas de não-crescimento, ainda é aí que primeiro emerge alguma rebeldia – como sugere uma nova e inesperada série televisiva da Al Jazeera.

Tudo isto para dizer que, porventura, há momentos que, que por força das circunstâncias, sinto que mais valia ficar calado… e não escrever. Mas talvez esse seja justamente o momento em que é necessário (voltar a) escrever.

Tudo isto para dizer, também, que já me cheira que mesmo um projecto como Uneven Growth, com o tema quente que propõe a debate e a plataforma de divulgação de que dispõe para tal, corre o risco de cair em saco roto.

MoMA_Uneven Growth_cover_cut copySneak-preview de Uneven Growth, The Museum of Modern Art, New York.

Numa situação “normal,” o catálogo de Uneven Growth, que acabou de partir para uma tipografia na Turquia, deveria gerar ondas. Com os seus ensaios por vozes incontornáveis como as de David Harvey, Sakia Sassen, Ricky Burdett e Teddy Cruz, ou com os seus cenários futuros para cidades cada vez mais desiguais, este livro poderia ser uma pedrada no charco.

Porém, começo a desconfiar que não, que não haverá pedrada no charco. Para gerar ondas, não basta a pedrada. Também se requer que o meio repercuta a energia cinética da provocação. Neste momento, porém, as águas estão tão mortas que nem uma pedrada faz mossa.

Bem-Vindos ao Futuro 2.0 (Utopia vs. Distopia)

Em jeito de continuação do post anterior, e em modo de boas-vindas a 2014, tenho-me lembrado com alguma regularidade da entrevista que fiz a Saskia Sassen no âmbito do projecto #unevengrowth.

Na entrevista, a socióloga holandesa sediada na Columbia University revisita uma dicotomia que parece particularmente apropriada para pensar o porvir das cidades globais: a distinção assaz tópica entre uma visão utópica e uma perspectiva distópica do futuro.

S Sassen interviewSaskia Sassen on Utopia vs. Dystopia: ver 7’12”.

Como sugere Sassen, há uma visão utópica que acredita que, perante uma crise grave, todos se unirão e a criatividade emergirá para superar as divisões sociais existentes nas cidades de hoje. Do outro lado, porém, há a possibilidade distópica de que a desigualdade corrente traduza, de facto, “a absoluta desconsideração” de uma minoria privilegiada por “qualquer noção de um projecto colectivo.”

Um dos factoides interessantes com que deparei na minha chegada aos Estados Unidos foi justamente que o adjectivo “distópico,” antes reservado a novelas de ficção científica relativamente obscuras, é agora banal e corrente – tanto no discurso académico, como na prosa diária de jornais respeitáveis.

A dialéctica emergente da utopia vs. distopia – que também se pode traduzir na oposição optimismo/pessimismo – veio-me de novo à memória ao ler “Sillicon Chasm,” um artigo perturbador sobre as ilusões da igualdade de oportunidades – essa noção que antigamente informava o sonho americano.

Enquanto, por aqui, uma demência conservadora estarrecedora continua a tentar convencer toda a gente dos benefícios da economia trickle-down – a ideia delirante de que se houver uns quantos bilionários a sua riqueza  vai pingar magicamente para todos à sua volta – o texto do Weekly Standard mostra com números e estudos que, mesmo no último reduto da cultura empresarial libertária, a desigualdade só continua a aumentar.

Basicamente, a mensagem é agora: “Habituem-se!!”*

Enterrada a quimera de uma classe média minimamente afluente, autores como o economista Tyler Cowen dizem-nos que não há como a resignação para nos ajudar a atravessar a grande estagnação que aí vem – a qual o professor universitário compara sem grandes problemas a uma nova Idade Média na qual… the Average is Over.

Soa distante? Soa a distopia? A única diferença é que agora os servos andam de metro, e em vez de religião têm televisão e lojas de 99 cêntimos. Onde a esperança antes se encontrava num acto de ƒé, hoje encontra-se num auto de consumo que se arrisca tornar fátuo.

De facto, nenhum economista explicou ainda como é que o consumo continuará a alimentar a economia quando o novo proletariado já não tiver margens para qualquer tipo de consumo conspícuo. O Japão aguentou-se durante a deflação? Talvez. Uns tempos. Mas atente-se no nível de vida que já se atingira por aí…

Como os políticos bombardeiam todos os dias, em Portugal o nível de vida vai ter que se resignar e adaptar à (baixa) produtividade local. Mas não se desespere. Ganhe-se conforto na ideia de que vai ser assim em todo o lado – mesmo nos lugares de alta produtividade.

Como se aponta no artigo referido, “85% da população, isto é, 267 milhões dos 315 milhões da América, terão sorte em encontrar empregos de nível MacDonalds ou em ‘amigalhar’ ganhos marginais freelance a realizar biscates a 25$ cada para os seus superiores via TaskRabbit.”

Com o aprisionamento de todos os aspectos da cultura ocidental pela lógica corporativa que assegura o sucesso dos 15% do topo – já que o dinheiro (mais que a mecanização) tomou o comando – recordei-me também que a leitura ideal para 2014 continua a ser The Year of the Flood de Margaret Atwood.

Mas, mesmo se não tivermos mais nada para fazer, não é preciso ir tão longe como ler um livro – que horror! – para perceber que as várias incarnações da perspectiva distópica estão a invadir a nossa cultura popular em várias frentes.

thething1958Image hacked from The Celluloid Highway

A indústria da cultura sempre teve o dom de popular o nosso subconsciente com os temas do dia – quer se trate dos aliens em vez dos comunistas dos anos 50, ou zombies em vez dos pobres de agora. E o momento corrente não é excepção.

De Hunger Games e Elysium até In Time – só para referir alguns blockbusters de Holllyood que já nem se dão ao trabalho de criar metáforas – abundam como nunca as antecipações de mundos que, sem qualquer catástrofe pelo meio, se encontram perfeitamente divididos em duas classes sociais antagónicas.

O problema da perspectiva distópica é que já não se pode perguntar: de que lado quero estar? Desaparecida a classe média em que muitos cresceram, e mesmo com o aparente advento da meritocracia – que, é bom notar, também tende para a exclusão –, a possibilidade da escolha está a desaparecer.

Como Saskia Sassen e muitos outros nos dizem, num mundo que, como Nova Iorque, é cada vez mais “first come, first served”, a velha ideia de “mobilidade social ascendente” também anda cada vez mais pelas ruas da amargura.

E, assim, por entre os pensamentos pessimistas que as distopias nos provocam em jeito de cautionary tale – pensamentos que podem ou não envolver o fim de civilizações desenvolvidas no pico do seu auge – resta saber onde encontrar algum optimismo.

Será que encontraremos soluções na aparente capacidade da tecnologia para ir resolvendo todos os problemas que se lhe deparam até à debandada final, tipo filme de crianças versão Wall-E?

Wall-E1-800x960Wall-E hacked from WallPapersUs (Pedrog Re-Edit)

Acreditemos que sim. De facto, sem esse optimismo, projectos como Uneven Growth, ou a ideia de que arquitectos ou designers ou outros podem endereçar estas questões, careceriam de qualquer tipo de sentido.

Para regressar às noticias que muito selectivamente leio de Portugal, onde não vejo soluções locais para os problemas económicos da grande estagnação é no recurso ao Conselho da Diáspora (de que, em jeito de disclaimer, faço parte), a “fixar arquitectos” (dos quais já descolei há tempos), ou, enfim, a acreditar no conto de fadas de que o “crescimento vem aí.”

De facto, dada a globalização vigente, em última instância não determinamos o nosso próprio crescimento –  simplesmente procuramos adaptar-nos ao que vai acontecendo à nossa volta. E a dita Diáspora também não vai ajudar porque, globalizada ou escorraçada, não faz mais que também ela tentar sobreviver.

Quanto a “fixar os arquitectos,” e sem desprimor pelo meu apreciado colega e recém-empossado Presidente da Ordem dos Arquitectos, não vejo mesmo como é que João Santa-Rita vai operar esse milagre.

Diversificação? Só se for no estrangeiro, como poderei pessoalmente afiançar. Investimento e empenho estatal na reabilitação das cidades com obrigatoriedade de emprego de arquitectos? Seria lógico e apetecível, mas, mesmo com vontade política, apenas se ainda houvesse dinheiro para isso…

Como diz o outro, o economista, mais vale que nos dediquemos a saborear a resignação de alugar uns quartinhos reabilitados no Airbnb.

Enquanto o turismo global dos 85% tiver pernas para andar, claro. Porque os 15%, ou os 5%, ou os 1%, obviamente dispensam essas coisas rascas.

Under the Influence

Enquanto, para irritação certa daqueles que em Portugal se tomam como o centro da atenção, a Trienal de Arquitectura de Lisboa se abria ao mundo (aqui, ali e acolá) , eu fui antes convidado para passar pela Triennale de Milão, onde o hardcore da arquitectura portoguesa se mostra mais uma vez aos (seus) pares.

siza3Image via Bea Spoli.

Após silêncio tão prolongado deste blogue, e os inevitáveis boatos de extinção daí advindos, pensei que seria justo brindar os “meus leitores” (essa minoria insondável, entre os fiéis indefectíveis e os google translate new-comers) com o meu contributo para essa exposição que agora se abriu por terras de Itália.

Como, para minha grande desdita, a disponibilidade para o deleite da escrita se tem revelado cada vez mais escassa, também aos organizadores da exposição tive que propor uma revisita a um texto que havia escrito há precisamente quatro anos – e que aqui também deixo à mão de semear.

Felizmente, e como por sorte me sucede acontecer, a revisita não resvalou necessariamente para o plágio em casa própria, ou, em termos mais pós-modernos e legitimantes, para a mera (auto)-apropriação, mas resultou antes numa curiosa actualização da estória e dos personagens que antes inventara.

Assim, mais linkado* aqui do que o papel ou o painel permitirão, aqui fica o meu pequeno texto para a exposição Porto Poetic, para que um dia os exegetas tenham a tarefa facilitada, pelo menos no que diz respeito a descobrir conexões, referências e outras ligações obscuras que, por alguma razão misteriosa, fazem sempre parte do prazer do texto.

Regeneração Debaixo do Vulcão

Quando se fala de cultura, as figuras de referência são o que se pode chamar um benefício contraditório. Essas figuras raras – génios, talentos incontornáveis, personalidades brilhantes – dão lugar a um paradoxo que apelidarei de “debaixo do vulcão.” Quando existem figuras de reconhecimento e prestígio excepcional num determinado campo de actuação cultural, é mais que certo que o valor que se introduz nesse campo é positivo. O capital cultural, como lhe chamaria Pierre Bourdieu, eleva-se às alturas. O campo torna-se mais rico. Sob a famosa “ansiedade da influência,” cresce a exigência e, logo, a qualidade.

No entanto, a situação não é desprovida de riscos. O campo pode “paralisar” devido a um excesso de carga positiva – o que se pode evocar como o “efeito Glenn Gould.” Perante a impossibilidade de superar as mencionadas figuras de referência, o campo cede à lógica da “terra queimada,” à criação de um no man’s land onde nada cresce durante gerações. No campo da arquitectura, este efeito é deveras conhecido, associado a personagens maiores como Le Corbusier, ou Óscar Niemeyer. Após o fulgor destas figuras maiores, parece apagar-se o brilho das gerações que se lhe sucedem.

Entre estas duas vertentes pode surgir também o estado “debaixo do vulcão” – que no passado tive oportunidade de descrever a propósito da arquitectura portuguesa. Como a presença de um vulcão no horizonte próximo, escrevia, personagens como Siza Vieira ou Souto Moura originam um território fértil. No entanto, “perante a eminência permanente da devastação,” podem também gerar um estado de suspensão hipnótica. Assim, a arquitectura portuguesa contemporânea, como o vice-cônsul do famoso romance “Under the Volcano” de Malcolm Lowry, viveria “simultaneamente inebriada e deprimida.”

UndertheVolcano

 …

Perante a dificuldade de copiar Siza, ou a facilidade de copiar Souto Moura, perante a evidência da fertilidade ou a eminência do vazio, as gerações pós-Pritzkers encararam um falso dilema: continuidade ou ruptura? Essa era, pelo menos, a tónica do discurso critico que também crescera à sombra do vulcão. Contribuí para a agitação das almas, propondo que, entre esses dois pólos, duas gerações emergiriam em Portugal num curto espaço de tempo. Essas gerações não eram assim tão diferentes. Mas, como mostrado na Bienal de Veneza de 2004, manifestavam diferentes apreciações das cinzas onde prosperavam.

A geração que levava a “continuidade” para novos territórios – e que é agora re-apresentada em Porto Poetic – fez-se herdeira legítima dos mestres, permitindo-se introduzir novas influências e perspectivas no seu legado. Usufruindo da proximidade geográfica e emocional ao vulcão, pelo menos enquanto aí havia espaço, cultivaram diligentemente o  terreno fecundo deixado pelas magnas erupções do passado.       Trouxeram novos instrumentos e técnicas, importaram referências do estrangeiro ou dos campos adjacentes da arte, e garantiram que a fertilidade dava os seus frutos.

A geração que era acusada do pecado da “ruptura,” não era menos dada a gerir a fertilidade que encontrara no chão onde crescera. Porventura mais volátil e inconstante, como costuma ser apanágio da juventude que pode sê-lo, apenas precisava de mais tempo para dar uso aos talentos que lhe foram confiados. Viajaram para longe do vulcão, pensaram eventualmente em estabelecer-se noutros territórios convenientemente distantes. Voltando ou não voltando, usufruiriam, também elas, do caldo genético que o vulcão deixara nas suas terras de origem.

Revisitada esta estória, é justo dizer que o trocadilho contido no termo “re-generation” é apropriado à descrição das novas gerações de arquitectos portugueses, quer estes sejam aclamados pela “continuidade” ou pela “ruptura.” Entre vulcões e pools genéticas, a importância da herança da arquitectura portuguesa, e de Siza Vieira em particular, é mostrar que a arquitectura se faz por regeneração, miscigenação, renovação.  Como dizia o outro, parar é morrer. Portanto é preciso que cada geração construa algo novo sobre aquilo que lhe é deixado. Uma vez que se compreenda isto, tudo o mais é relativo.

Nova Iorque, Agosto 2013

Black Friday (Confidências do Exílio)

So, I’ve enjoyed my first (discrete) Thanksgiving in New York, and today people out there are having another consumeristic frenzy – while retailers respond accordingly, namely extending shopping times and dragging underpayed labor to work on what used to be the most sacred American holiday.

Where this sacred and blind belief in consumerism will drag the U.S., I don’t know. But it does sound unpromising, specially when one knows that around 2030 we will need 2,5 planets to feed the population on Earth. In this age of interconnected global disaster, believing that one’s backyard empire will remain unaffected by such a lack of resources sounds silly and irresponsible.

This Black Friday was also the dark occasion in which I received news that my old publishers in Amsterdam, Sun Architecture, are currently holding a massive sale of their architecture titles, thus confirming the end of a beautiful, but apparently untimely editorial project.

Those were the editors that welcomed Beyond and its Short Stories on the Post Contemporary. The good news is that, if you had an interest in Beyond and were put off by its pricey cover value, you may now order the bookazine series with unique fictions by up and coming European architectural writers for only 15€!

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Yes, you have read correctly: fifteen euros for the three published volumes of Beyond at a distance of a click! A true Black Friday bargain!!!

This made me feel sad, of course. Ultimately, it’s just another episode of Europe’s anihilation of its best asset: cutting-edge cultural production.

With cultural cuts happily leading austerity measures even in the richest of countries –  and the private sector inevitably aligned with public policy – Europe takes care of its self-destruction by wiping out what could be its largest future export: intelligence, design culture, creative thinking.

Even if only for touristical purposes, production of culture in Europe was a powerful and profitable investment: beyond German engineering, European culture, as its welfare State, produced the profile and richness for which Europe was recognized, visited and looked at as a desirable model.

However, when austerity measures are the rule, culture is considered superfluous. Along the same line of thinking, Europe’s investment in higher education too is to be trashed and emulate the production of inequality and profit that is typical of the anglo-saxon education model – until that bubble also burstsand perhaps demonstrates that there is nothing really interesting to emulate in such a model.

One wonders if the desinvestment in a democratic access to education is part of an invisible class war, or if it is solely a pragmatic response to the fact that, after all, higher education in Europe only contributed to produce its most cultured ‘lost generation’ ever…

It’s not only in the South European countries, and not only amongst its young, however, that Europenas are faced with the dilemma of either unemployment or self-imposed exile, i.e, choosing emigration as a way of escaping recession (and its silent partner depression).

I’ve landed in MoMA because I felt I had to look for alternatives – thus enjoying the privilege of spending a terrible period for Portugal in a golden exile. Recently, though, previous directors of publishing ventures such as Actar in Barcelona, or, alas, Sun Architecture in Amsterdam, were also welcomed by Montreal’s Canadian Center for Architecture.

Many others are probably looking for similar opportunities, and, like in other historical periods, the New World gladly takes in the European talent. In other historical periods, nonetheless, there were profoundly serious reasons for the exodus of European creative minds: racial prosecution and a World War.

Now, however, while we hear that if the European Union was one nation its achievements in the Olympics would have tripled the U.S. – and as if announcing Europe’s unfortunate and miserable decline –  the only reason for the new exodus seems to be stupidity, and a definitive lack of political vision.

Salon des Refusés #02

Penguin Pool, Berthold Lubetkin, London Zoo, 1934. Via PostalesInventadas.

Park Life*

A final blow to the mythology of concrete as the ultimate, universal modern material took place in 2004, when the last remaining penguins in Berthold Lubetkins’ Penguin Pool at the London Zoo polemically left their celebrated shelter in search of a setting that would feel closer to their natural environment. After 70 years, Lubetkin’s architecture was still deemed organic, but not sufficiently so. Sympathetic to the penguin’s stand, a local zookeeper was reported to say that the pool was “an architect’s dream, not a penguin’s.”

 As the Armory Show is coming to town, and as yesterday I was hearing Michael Loverich of Bittertang describing the birdcage they had just fabricated, I couldn’t help remembering that Candide #5 is finally coming out – with the personal plus that it carries four micro-fables I much enjoyed fabricating myself last year.

The cautionary penguin tale above was one of five that were actually left out of the forthcoming issue of the magazine led by Susanne Schindler and Axel Sowa, which is to be released next week through Actar. In print you will find another four very-short stories featuring a coakroach, some cad-monkeys, the inescapable Orwellian pigs and, most naturally, a Venturian duck.

The Big Duck, New York, 1931. Via Wikipedia.

The fables were initially proposed for LOG #22, after Michael Meredith invited me to participate in his guest-edited issue on the absurd. I thought the best way to reflect on the absurd was obviously to produce something absurd. Thus, the predominantly post-apocalyptic Fables of the Reconstruction (after REM).

Nonetheless, the editors obviously preferred politically-correct theoretical takes on Bruno Taut. This being said, it is understated that I will never understand the editorial logic of architecture magazines around this side of the globe, except if for their odorous lust for an imprecise academic celebrity.

Conversely and ultimately, and as I was confiding to both the former Michael and Cristina Goberna of FakeIndustries, I do think one of the more delightful and obscure crazes recently unfurling in the para-architectural world is precisely that of a bizarre, wide-range excitement for animal architecture.

Daniel Arsham, Untitled (Kangaroo), 2009. Via Flavorwire.

In this case, the absurd is definitely not in the eye of the beholder. It really is lurking out there. And it certainly has something to say on architecture as a discipline today. Remotely, it may even provide for its critique.

As Gogol had it in The Nose, back in 1836: “Where aren’t there incongruities? — But all the same, when you think about it, there really is something in all this. Whatever anyone says, such things happen in this world; rarely, but they do.”

Postscript: finally, how would I resist adding an image of Tom Ford’s doghouse?

..Image courtesy of Todd Eberle.

Welcome to the New World

No. This post is not yet another tribute to Terence Mallick – although I did offer The New World* dvd to my brother over Christmas. Neither is it a sardonic bienvenue into the harshest year the Old World is about to see in a long time. (Nor is it a self-congratulatory note on my new appointment at MoMA.)

The New World. Image via satyamshot.wordpress.com.

Nope. This is only a small reminder about paradigm shifts, and changes and opportunities provided by ideological crises and stagnant realities, and the way in which architecture may these days be finally metamorphing into something completely different – as the Monty Python would surely put it.

So, this is also about the last article I’ve published in 2011, as it just came out in a great issue of MAJA, the Estonian Architectural Review. Facing the theme of architecture as event, this was ultimately a reflection on the idea of networks vs. affiliations, of which I want to give you a new year’s gift of an excerpt:

Is architecture a technical service or a cultural production? Is it both? Or is the profession actually splitting to accommodate potentially contrasting positions? Such questions illuminate how, within a heavily mediated context, social networking and cultural exchange acquire a renewed relevance. Pierre Bourdieu has classically written on how the fields of cultural production – what he, in fact, called the economic world reversed – always contain two opposed sub-fields. In contrast with a sort of extended, middlebrow production that engulfs the majority, one of these sub-fields is a restricted territory to which only a few can belong, but which actually determines the effective symbolic values at play in the whole field. Still, he considers that the two sub-fields are magnetically united by permanent transactions, including players who, by ascension or declassification, move from one sub-field to another. But what if these two sub-fields are actually splitting into two entirely different professions? What if a part of the architectural profession, namely its restricted sub-field, is detaching itself into an autonomous sphere that, although it might still inform and produce reflection on the world of construction, is no longer tied with the dimension of architecture as technical service? This would mean that a section of the profession would acquire independence as a purer form of cultural production. And would thus be ruled by the thorny, uncertain laws of culture making. Intrinsically, more than formally, this world would then be inevitably closer to the functioning of the art world – with its galleries and museums, and its biennales and events, and its collectors and markets, its media and formats, and its power games and exquisite social networks. It would be as if the Moon stopped orbiting around the Earth and turned instead to Mars. Well, beware. The Moon is already making its way to Mars.

 In Architecture, Networked Cultures and How to Make the Most of Them, MAJA #70, Tallin, December 2011

What Used to be Called Public Space

As I delivered my nominations for the 2012 European Prize for Public Space, and as the classic thinker of the corresponding sphere was suddenly raging, I felt the urge to go back to a book that reassesses, if not indeed upturns, the fashion in which architects and planners regard urban space and its public dimensions.

It’s only in appearance that the recently published Urban Maps is about establishing a cartography of the city. Unless, of course, one considers that the practice of mapping the city is nowadays becoming itself highly performative.

The investigation’s subtitle is eventually more enlightening: Instruments of Narrative and Interpretation in the City. Even so, the academic overtones hide the fact that this exciting read is all about grafitti and street art, film and underground flâneurs, pixadores and new modes of psychogeography – as practices that should now be taken as referentials to occupying architecture.

As my own endorsment prints in the back cover:

Fifty years ago, Kevin Lynch offered us a classical reading of ‘the image of the city’ based on a waning ideal of clear built landmarks and distinct urban signs. Now, through inspired insights and an in-depth inquiry into a vast array of contemporary urban practices, the authors of Urban Maps reveal us how the complex narratives currently converging in the appropriation and redefinition of an eroded urban space require a totally revamped cognitive mapping… From the readings of cinema to the interventions of street art, from the markings of graffiti to the identities of brandscapes, and from the wanderings of contemporary art to the fictional drives of theory, architecture is confronted with the need to review the cartography of its references when facing the ascendancy of the urban condition – and the prominence of new networked, information-augmented realities – as substituting for previous conceptions of the city.

Like the most interesting charts of new territories, Richard Brook and Nick Dunn’s publication presents us with insights into the least seen spots of the current urban condition, into the borders and hidden spaces of varied forms of intervention within the city landscape.

As an appropriate side dish, we are ultimately offered a thorough reflection on how architecture now competes for an expressive space in this sign-invaded, market-dominated, narrative-filled urbanscape.

Image by RE_MAP, Manchester School of Architecture’s design research lab

After we turn these pages and practice stories we’re left with the pertinent and resilient concern on how “a critical understanding of the evolution of art in the environment can be translated to a discourse concerning the production of architecture.” And the more we take to the streets,* the more such concerns are to overcome any remaining delusion of architecture’s conventional autonomy.

Autonomy should still be there, yes. But, if you want, in a kind of Hal Foster version in which culture practice is still able to relate to social and political reality, while it manages to sustain its ability to be critical and somewhat exempt from the demeaning effects of external (and peer) pressure.