Os Problemas da Crítica

Originalmente publicado na revista Laura #03 Crítica,                     DAUM / Universidade do Minho, Guimarães, 2005

Há uns anos atrás, o ‘problema da crítica’ em Portugal ainda podia ser comparado a algumas situações culturais similares em que a crítica de arquitectura parecia asfixiar. Um falso balão de oxigénio surgia, então, na descoberta de que “afinal, não somos os únicos.”

A evolução dos últimos anos, porém, parece ter-nos definitivamente distanciado até dos benefícios duvidosos de tais comparações.

Assim como assim, quando, em 1996, a Révue d’Esthétique publicava em França um extenso dossier sobre a situação da crítica, da teoria e da arquitectura naquele país, não deixava também de comparar a mesma com outros panoramas, e nomeadamente o anglo-saxónico, nos quais a crítica – como a teoria – pareciam assumir um papel consideravelmente mais dinâmico.

Em comum à nossa realidade, e salvaguardadas as devidas escalas, apontavam-se então uma série de dolorosas condicionantes contextuais a estas práticas que incluíam um anti-intelectualismo típico nestes domínios criativos, pouca discussão nas escolas de Arquitectura, os museus quase exclusivamente limitados à monografia, as traduções a aumentar significativamente o seu atraso em relação à publicação de originais estrangeiros, bem como uma notória preocupação com os aspectos mais superficiais do projecto.

Isto enquanto noutras paragens os arquitectos “liam, debatiam, discutiam, produziam textos teóricos, críticos ou históricos, ensinavam de universidade em universidade, de Barcelona a Lausanne, de Viena a Los Angeles.”[i]

Passados 10 anos, a situação atrás descrita não parece, em Portugal, ter melhorado.[ii] Em função da evolução do contexto português, pode dizer-se muito particularmente que a crítica e o seu exercício se verificam agora mais deprimidos e problemáticos que antes.

Porquê, perguntar-se-á?

A pergunta faz especial sentido, quando se verifica que, para além do crescimento exacerbado do número de arquitectos, a cultura arquitectónica (portuguesa e não só) ganhou muito maior visibilidade na sociedade portuguesa.

Tal aconteceu não só através das relações interpessoais – cada vez mais gente conhece um/a arquitecto/a em consequência do aumento dos seus números –, mas acentuou-se especialmente através do papel dos media. A arquitectura ganhou espaço e presença no quotidiano dos portugueses.

Pode-se até acrescentar a este respeito que, para além das revistas mais ou menos especializadas que passaram a ser presença regular nos quiosques, se ganharam espaços mediáticos institucionalizados para a arquitectura em meios generalistas.

Assim se definiram presenças regulares nos media tais como a página de arquitectura no – ainda assim suplemento ‘cultural’ – ‘Mil Folhas’, do jornal Público, o suplemento esporádico do Expresso, ‘O Traço e o Tempo’, ou até, porque não?, uma coluna de opinião como a de Tomás Taveira na revista dominical do Correio da Manhã.

Todos estes espaços traduzem ainda, porém, uma espécie de fase primitiva da abordagem da arquitectura no contexto da ‘esfera pública’. Quase sem excepção, todos traduzem uma posição de ‘divulgação,’ não sem que isso não permita, em casos ou momentos específicos, o acréscimo de uma componente crítica.

Nesses casos – e refiro-me particularmente às páginas de arquitectura do Público – a componente crítica que emerge da prioridade colocada na divulgação é principalmente produto de um mecanismo de filtragem a priori: o crítico selecciona obras que considera dignas de divulgação. Discrimina positivamente.

Raramente uma obra é pré-seleccionada para ser objecto da crítica porque impera a necessidade de denunciar os seus aspectos e impactos negativos. Esta ‘crítica’ é, assim, mais frequentemente orientada para um certo didactismo – algo certamente necessário e que decorre, naturalmente, da necessidade de explanar os ‘bons exemplos’.

Por esta via, porém, esta crítica de divulgação – e, mesmo contados outros meios mais ou menos especializados, não existe muito mais que esta crítica de divulgação em Portugal – acaba por se furtar a uma série de ‘responsabilidades.’ E aqui começam ‘os nossos problemas’.

A primeira e mais simples das fugas às responsabilidades tradicionais da crítica é, desde logo, por complementaridade de discriminação positiva já descrita, a de deixar de explanar com a mesma dose de didactismo os ‘maus exemplos’ que por aí grassam.

Numa fase de crescimento indiscriminado, em que as escolas de arquitectura nasceram como cogumelos, é natural esperar que a formação tenha sido desigual (para ser generoso) e que ao mercado tenham chegado arquitectos com aptidões menos adequadas (para ser mesmo muito generoso).

Neste contexto particular, a crítica ganha uma responsabilidade extraordinária: ela passa, por força das circunstâncias, a acrescer à formação inicial para oferecer, se possível, um quadro de valores e critérios disciplinares, estéticos, sociais e culturais que se juntem aos condicionamentos normais da prática profissional corrente.

Ora, este fundamental quadro de valores não pode ser exclusivamente construído à custa dos ‘bons exemplos.’ Os ‘bons exemplos’ não são, para começar, suficientes para explicar porque é que os ‘maus exemplos’ são ‘maus exemplos’. Onde estes últimos falham, onde incorrem em erro, onde prenunciam uma ‘má prática.’

Tal ‘construção crítica’ estritamente baseada nos ‘bons exemplos’ não leva a mais do que aquilo que, de facto parece estar a acontecer no panorama português: uma cultura generalizada da cópia e do pastiche, isto é, a banalização da emulação dos ‘bons exemplos’ como um recurso desesperado por parte daqueles a quem as referências escasseiam.

Os ‘bons exemplos’ correm, então, o risco de, por mera reprodução, se tornarem os ‘únicos exemplos’. Nesse momento, e particularmente num meio em que a diversidade não abunde, os ‘bons exemplos’ correm também o risco de imporem uma ditadura dos gostos e dos únicos possíveis modos de actuação perante a realidade.

Acresce a esta responsabilidade, a necessidade de a crítica estimular o debate e a polémica. Esse estímulo deve partir de um quadro de referências e valores que a própria crítica deve construir e tornar acessível – mas também permanentemente questionar. Neste sentido, a crítica – mesmo a de divulgação – não pode passar exclusivamente pela análise da produção corrente à luz de um quadro de valores previamente estabelecido.

Tal balizamento apriorístico é o que se confunde demasiadas vezes com uma crítica de ‘tendência,’ vertente que muito embora possa conviver com outras formas de crítica, não pode, obviamente, ser a forma de crítica exclusiva num determinado meio.

Qualquer forma de crítica é (ou devia ser) também necessariamente alterada, nos seus próprios quadros de referência e orientação, pelos novos objectos que uma dada produção vai oferecendo. De resto, não se desse o facto desses objectos fugirem constantemente aos pressupostos do ‘já conhecido’ e do ‘já reconhecível’ e a crítica ficaria, também ela, afinal, destituída da sua função ‘descodificadora’.

Num outro patamar – a que a dita ‘crítica de divulgação’ também se tem vindo a furtar alçar-se – urge ainda que a crítica assuma e cultive uma dimensão social abrangente. Este é talvez o passo essencial que se segue à ‘crítica de divulgação,’ uma forma que, apesar das suas naturais limitações, foi reconhecivelmente necessária a uma fase instável de crescimento da cultura arquitectónica em Portugal. A necessidade subsequente de uma dimensão social abrangente, de algo que vai além da mera divulgação de obras e aspectos culturais específicos, prende-se com diversos factores.

À medida que a cultura arquitectónica adquire maior visibilidade na arena da opinião pública, também os seus termos críticos e quadros de valores devem ser tornados mais compreensíveis a recipientes cada vez mais generalizados.

Dada à generalização da cultura específica da arquitectura através da sociedade, as audiências da própria crítica já não têm que se restringir à comunidade dos arquitectos – aqueles ‘pares’ que a crítica ainda assim continua necessariamente a privilegiar logo que mantenha um discurso hermético –, mas pode e deve estender-se aos leigos interessados, aos potenciais clientes, aos outros intervenientes no processo de construção da cidade.

Quando a crítica de arquitectura ganha espaço mediático deve, justamente, contribuir para a inversão de uma impressão de afastamento e inacessibilidade da arquitectura face à sociedade em geral. O crítico de arte ou de cinema, por exemplo, não escreve exclusivamente para artistas ou cineastas, mas, logicamente, para os potenciais públicos das respectivas produções dessas áreas de criação.

Se, de facto, a arquitectura ganha notoriedade pública e a sua produção volta a ganhar uma visibilidade comentada e discutida na ‘esfera pública’ – como é o caso, dada a sua mediatização crescente em Portugal como noutros contextos – então passa a poder entender-se como uma produção cultural que se rege pela mesma lógica de apropriação de áreas como o cinema ou a arte.

Por entre as várias abordagens e graus de profundidade atribuíveis à crítica, pode-se então imaginar que devam conviver formas mais restritas – dirigidas aos pares através de meios especializados ou até académicos – e formas mais socialmente abrangentes – que procuram situar a actividade e as produções da arquitectura no quadro de uma produção cultural e social mais abrangente.

Da primeira abordagem, e de modo próximo ao da teoria, espera-se a formulação e questionamento dos grandes quadros de valores, tal como uma crítica formal mais direccionada à vocação e aos termos que constituem e redefinem a disciplina.

Da segunda, por sua vez, pode esperar-se uma relação directa com os objectos da produção quotidiana da arquitectura, incluindo os seus impactos sociais e culturais mais vastos, o que não impede que esta traga, de volta à disciplina, dados e critérios importantes oriundos da ‘recepção’ e que podem também contribuir para a revisão dos já referidos quadros de valores.

Deste possível aspecto dúplice da crítica pode-se extrapolar mais um dos seus ‘problemas’ e até um dos primeiros entraves ao seu exercício deontológico, particularmente em contextos caracterizados por uma certa limitação. Uma crítica com uma dimensão social abrangente – ou seja, uma crítica que não se pretende ficar pela crítica estrita, disciplinar e formal, mas que cruza a análise das intenções arquitectónicas com os impactos culturais, sociais, políticas e económicas do objecto construído, isto é, com sua efectiva recepção na sociedade – corre o risco de colocar em questão o papel do arquitecto ou do objecto específico da crítica.

Ora, como facilmente podemos adivinhar, num meio pequeno e inseguro isto constitui um autêntico anátema. Assim, segundo este pressuposto particular, um meio ou actividade que ainda se encontra em fase de afirmação social teria que crescer de forma acrítica, o que, desde logo, não anda muito longe do cenário do Portugal neste início de século.

Neste sentido, a crítica retrai-se das suas responsabilidades perante o risco de se ver ela própria excluída de um meio pequeno e corporativo. Chamar livremente a atenção para o que o crítico toma, no pleno exercício das suas funções, como ‘maus exemplos’ pode até, como já aconteceu, dar origem a incompreensíveis sanções corporativas.

Para além de desprotegida, a pouca crítica portuguesa que subsiste parece, de resto, mostrar-se ainda demasiado em ‘espírito de missão’, para, aparentemente, se sentir à vontade para apontar o dedo às ‘más práticas’.

A crítica correria, deste modo, o risco de parecer denegrir a profissão de que é oriunda para o comum dos observadores externos. Esquece assim, porém, que a maior parte deste observadores reconhece a maturidade de um determinado meio pela sua capacidade de auto-fiscalização deontológica, papel que a crítica pode absorver parcialmente.

A crítica esquece também assim que, deste modo, contribui activamente para que o meio continue a crescer acriticamente e, mais, para que as ‘más práticas’, devidamente amparadas por outras legitimidades sociais, políticas e económicas, se arroguem entretanto encontrar acima de ‘qualquer’ crítica.

Se estes são problemas que se revelam no exercício daquela crítica que vai subsistindo, encontro ainda maiores problemas no facto de o próprio sector da crítica não se encontrar em crescimento – como poderia ser de esperar quando o número de arquitectos aumenta e, com este, o número daqueles que tem de encontrar saídas profissionais diversas da prática tradicional.

Seria de esperar que com mais arquitectos com tempo disponível para a reflexão crítica e com mais revistas profissionais presentes no mercado se desse uma explosão da crítica no meio português. Porém, tal está longe de acontecer. Mais uma vez é caso para perguntar: porquê?

Identifico dois tipos de razões. O primeiro é que, apesar dos crescentes cursos de mestrado e de especialização teórica, apesar do crescimento generalizado dos cursos superiores, a formação vocacionada para a constituição de um corpo efectivo de reflexão crítica continua a ser incipiente.

Acresce a este cenário depressivo a reserva intelectual de uma classe profissional que, em Portugal, é tradicionalmente sustentada no domínio da componente prática. Para esta, a crítica continua a ser uma actividade secundária, para quem não ‘consegue’ encetar uma prática corrente.

Esta perspectiva esquece que as condições da prática se alteraram e que, assim, hoje em dia, a sectores importantes de recém-formados não será sequer dada a oportunidade de começarem a mostrar ‘o que valem’ no mundo da prática. Fosse, ainda assim, este problema suplantado – por exemplo, através de possibilidades reais de especialização nas áreas da crítica, da teoria e da investigação, em opções vocacionais dos finais de curso ou em mestrados que não servissem exclusivamente para as progressões da carreira académica – e o problema só seria transferido para o campo da segunda ordem de razões.

A segunda ordem de razões prende-se justamente com a profissionalização da crítica. Para além da vocação, do empenho e da coragem, a crítica precisa também de motivos reais, de encomendas, de regularidade e de auto-construção permanente. Para tal a crítica necessita, afinal, de veículos e meios que, simultaneamente, são os intermediários para atingir a sua potencial audiência.

Se, como se afirmou atrás, esses veículos e meios se desmultiplicaram na última década – em revistas mais ou menos especializadas, em presença nos meios generalistas, na remodelação de orgãos associativos como o Jornal de Arquitectos, no maior número de publicações no mercado livreiro, até em revistas de estudantes – porque não se dá, ainda assim, um desmultiplicar da actividade da crítica?

Simplesmente, porque mesmo no âmbito desses meios a crítica não foi e não é ainda vista como um meio de subsistência, uma actividade profissionalizada daqueles que se predispõem a escrever. Como se pode proceder então a um esforço de profissionalização da crítica se esta não é um ‘trabalho’ sequer reconhecido pelos seus próprios veículos privilegiados?

Se editores e directores de revistas – mesmo quando estas auferem de um orçamento destinado aos mais variados custos e mesmo, em alguns casos, asseguram lucros por via da publicidade e da comercialização – continuam a achar que os conteúdos não têm um custo ou procuram contornar os mesmos, como atribuir alguma validade à prática da crítica?

Se não existem subsídios ou fundos que, como noutros países, sejam canalizados para essa prática específica, como assegurar a continuidade de uma produção? À excepção de alguns casos devidamente instituídos e, ainda assim, sempre a tempo parcial, a crítica torna-se, deste modo, avulsa e circunstancial.

Sem possibilidade de ter alguma margem de estabilidade profissional, a crítica torna-se mero exercício pontual de aplicação de critérios de gosto ou escape académico para a matéria excedentária do pensamento dedicado a outras pesquisas de fundo.

A bel-prazer do crítico auto-proposto e auto-empregue, e particularmente depois do esgotamento dos empenhamentos ideológicos do passado, a crítica apresenta-se, também assim, sem qualquer necessidade de estabelecer um compromisso deontológico para com um projecto de crítica.

Por entre este estado de coisas, o que a maior parte dos actores do meio parece esquecer ou fazer de conta que não entende é que os ‘problemas da crítica’ não são só da crítica. O facto é que os problemas da crítica extravasam rapidamente o círculo da sua limitada área de origem e espalham-se, como um vírus, à própria prática da arquitectura.

A crise da crítica ditará, a curto prazo, o esvaziamento da arquitectura portuguesa. Não porventura dessa arquitectura de produção restrita que alimenta (acriticamente) as revistas. Essas continuarão relativamente repletas de ‘bons exemplos’, literalmente oferecidos por aqueles que mantém, na sua própria actividade quotidiana, alguma reflexão crítica e uma inerente renovação teórica de aqui se fala implicitamente. Porque esse é o sector que se renova por si e cuja qualidade continuará a ser sancionada pela mera aprovação dos pares, sem aparente necessidade de mais ‘crítica’ que a da autoconsciência privilegiada dos seus autores.

Não, não será essa arquitectura que implodirá.

Será antes a outra, a da grande produção, a que marca presença na cidade e nos subúrbios, essa produção corrente em nome de cuja suposta qualidade média se ‘democratizaram’ as escolas de arquitectura e se colocaram no mercado milhares de novos arquitectos. Será essa produção que revelará os desaires da queda da crítica enquanto actividade profissional respeitável e viável.

Pedro Gadanho, Lisboa, Julho de 2005


[i] Ver Fol, Jacques e Girard, Christian, (eds.), ‘L’Architecture en Theorie’, in Revue d’Esthétique #29/96, Jean Michel Place, Paris, 1996

[ii] Esta situação estava já no foco das preocupações de um meu anterior artigo publicado em 2001. Ver Gadanho, Pedro, “Corte Transversal, ou a ausência do discurso crítico na arquitectura portuguesa do final dos anos 90”, in “Arquitectura Portuguesa Contemporânea”, Cannatá, Michele e Fernandes, Fátima (eds), Edições ASA, Porto, 2001

 

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