Geração Silenciosa

No dia em que Isaltino Morais é constituído arguido, decido escrever.

Não sei se é por ver confirmados sinais positivos de que alguma coisa mexe na República de Portugal, ou se porque, simplesmente, se tornou insuportável o silêncio.

Ver beliscada a soberba desse sentimento de impunidade que grassa pelo país é talvez um estímulo suficiente.

Os sorrisos altivos desses senhores que, à esquerda e à direita, a podre justiça colocava acima dos outros, seriam mais que suficientes para levar toda uma geração – que, por facilidade, definirei abaixo da fasquia dos 40 anos, mas que é ainda mais pertinente abaixo dos 35 ou dos 30 – a desprezar profundamente o sistema político com que é obrigada a viver quotidianamente.

Por certo, não desprezamos a democracia.

Para qualquer indivíduo que tenha passado relativamente incólume ou que, inclusive, tenha nascido após o 25 de Abril, a democracia não é sequer discutível. É uma herança ocidental, europeia e humanista que encaramos com naturalidade. Justamente, não vemos a democracia como expressão pura de uma partidocracia, nem tão pouco, como parece ser o caso por estas bandas, como um mero subproduto da ‘resistência’ a um regime autoritário prolongado.

Porém, de facto, estamos profundamente fartos de política partidarizada e de tudo aquilo que regurgita genericamente à volta da mesma: corrupção, hipocrisia, mesquinhez, falta de visão, conluio com os mais diversos interesses instalados, incapacidade de concretização. À medida que a consciência aumentar, imagino que começaremos, também, a ficar agitadamente furiosos com as consequências funestas que o estado de coisas atrás descritas traz ao país e ao futuro do mesmo.

Porque não falamos então?, perguntar-se-á.

As mentalidades mudam de facto e, assim, aqueles que hoje em dia tem entre 25 e 40 anos – e, sejamos claros, aqueles que neste momento maioritariamente sustentam o país com capacidade de iniciativa e dedicação enérgica ao trabalho, quer se trate do sector privado, quer do público – dedicam-se primordialmente, e na medida do possível, a usufruir a boa vida que uma democracia ocidental lhes pode oferecer nos dias de hoje.

A boa vida passa pela possibilidade de trabalhar, mas também pelo crescente usufruto do lazer e do consumo proporcionados por sociedades relativamente afluentes. Nestas condições, a confiança no futuro distante é abundante e não merece grandes reflexões. A boa vida é vivida em função de objectivos e recompensas palpáveis e imediatos.

Entretanto, a despreocupação inteiramente natural com a adversidade – e até com as crises que podem ameaçar o seu próprio estilo de vida – é vista por ‘outros’ como uma forma de desresponsabilização. Também assim, as gerações ainda mais jovens vão sendo sucessivamente vistas como mais ‘rascas’ naquilo que as relaciona com a ‘res publica.’

Ambas estas gerações são só, porém, produtos compreensíveis da sociedade de consumo que as gerações anteriores acharam por bem instituir para garantir a sobrevivência do seu sistema económico e político.

Assim, mais que politicamente irresponsáveis somos antes silenciosos e desdenhosos perante as vicissitudes do sistema político que herdamos – algo que alguns ‘falsos’ jovens, extraídos do curso normal das suas vidas, continuarão a perpetuar a partir da lavagem cerebral das juventudes partidárias.

Por surpreendente que pareça, até discutimos entre nós, em tertúlias políticas e culturais que os tempos julgam esquecidas, mas agora dominadas pelos afectos, os gostos e os comentários do comentário.

Mas guardamos para nós as nossas próprias opiniões, encolhendo os ombros, dispensando gestos quixóticos que consomem energia em demasia.

Guardamos, apesar de tudo, também alguma esperança que esse sistema que desprezamos vá funcionando e, por entre os seus estertores e desvergonhas, nos vá mantendo naquele limite de viabilidade que, um dia – esperamos em segredo –, se transferirá inteirinha para o espaço político europeu que, afinal, e depois de Delors ter tido a inspiração de nos ter mandado para os Erasmus e para os Leonardos, é aquele espaço político em que, em desespero de causa, nos preferimos rever.

Talvez esteja na hora desta geração silenciosa começar a dar sinais de si.

A crise de estado que se começou a avolumar desde a euforia insuflada do final dos anos 90 parece ter atingido o ponto de rebuçado.

Não só há sinais de que as pústulas do sistema começam a estar tão cheias e a ganhar tal evidência que têm que rebentar e libertar o pus, como também a necessidade de reformas estruturais começa a ganhar contornos de urgência médica que, definitivamente, põe em risco até essa ansiada nemesis europeia.

Por tal, há, de facto, que sair da letargia confortável a que a geração silenciosa se acometeu para expressar uma voz porventura dissonante da chamada ‘contestação social’ ou dos sempre omnipresentes ‘interesses corporativos’ ou ‘económicos.’

Há que, por momentos, pôr de lado a euforia do trabalho e da criação, bem como os paraísos artificiais do consumo e do lazer, para vir a terreiro, interferir com as ‘vozes’ que os media tem vindo a privilegiar sempre que uma boa cacha anti-governamental ou anti-o-que-seja o justifica.

Porque o que ‘aparentemente’ se está a passar – pelo menos na versão diariamente encenada na comunicação social – é que a ‘sociedade civil’ está pura e simplesmente a impedir as reformas básicas que, daqui a dez anos, poderão garantir a este país um mínimo de saúde económica, política e mental.

Será que alguém pára para pensar seriamente sobre este assunto?

Tirando algumas raras excepções de comentadores lúcidos que discretamente vão avisando sobre a hipoteca do futuro das gerações mais jovens deste país, parece que está tudo cego à evidência sobre quem é que vai pagar esses ‘direitos adquiridos’ de que tanto por aí se fala e abusa.

Pois somos nós, sim senhor, essa geração silenciosa que, por acaso, é também já o sustentáculo central do tecido produtivo de qualquer sociedade.

Começa-me a perturbar, para já não dizer indignar, ver sindicalistas de discurso de plástico a defender os interesses exclusivos das suas próprias gerações – talvez, porque, depois de terem realizado a sua função histórica fundamental, não chegam agora às gerações mais jovens.

Começa-me a perturbar, para não dizer indignar, que a Igreja venha a lume debitar generalidades decalcadas de homílias de anos transactos e inteiramente desgarradas da natureza desta crise.

Começa-me a perturbar, para não dizer indignar, que os juízes, como outros, tenham a distinta lata de sequer se atreverem a tentar manter privilégios indefensáveis perante o estado nacional da justiça ou de outros serviços fundamentais.

Começa-me a perturbar, para não dizer indignar, que o egoísmo, a mesquinhez e a estupidez profunda de muitos portugueses se traduza exclusivamente na ganância da acumulação monetária privada – quer seja pela manutenção de privilégios insustentáveis, quer seja pela corrupção, quer seja pela fuga aos impostos –, esquecendo que o interesse do conjunto é o que prevalecerá na qualidade de vida dos seus descendentes.

E começa-me a perturbar, para não dizer indignar, que, por entre tantos ‘direitos adquiridos’, isto é adquiridos pelos ‘outros’ nos últimos trinta anos, a geração silenciosa de portugueses que agora se encontra, no activo, entre os 25 e os 40 anos, se deixe agora canibalizar, sem tugir nem mugir, pelos seus próprios progenitores.

Por isso, pessoalmente, venho dizer: eu abdico.

Sim, sou professor e agente da função pública e, sim, abdico.

Declaro abdicar de todos os direitos que adquiri e todos os que não adquiri desde que iniciei a minha prática profissional para garantir um futuro mais acolhedor para todos.

E mais: declaro dar carta branca a este governo (ou a qualquer outro, tanto me faz) para produzir toda a ordem de reformas consideradas necessárias, não para corrigir a endemia temporária do défice, mas para endireitar de vez este país esclerosado e absurdo, de que começo a ter vergonha.

Porém, se abdico, também me sinto no direito de exigir.

E, então, exijo inclemência para as verdadeiras inequidades que estão a debilitar este país: a corrupção e o caciquismo terceiro-mundistas; os privilégios e os ‘direitos adquiridos’ na senda da saída de um regime débil e mesquinho; o escoamento e lavagem da riqueza nacional por entre os tentáculos das economias paralelas; a venda desbragada das jóias da coroa para tapar a peneira do défice e evitar reformas que clamam ao óbvio; a justiça lenta e ainda demasiado injusta.

Se possível fosse, exigiria também inclemência para com a inveja e a cupidez, esses ‘nobres sentimentos’ que parecem agora grassar como uma espécie de referências nacionais que se juntam ao panteão do lixo televisivo de cada dia.

Há uma geração silenciosa que aguarda que esta pele viscosa que a rodeia – e que lhe calhou por fado e destino – se descole por si, que caia de podre e que a liberte para uma identidade europeia mais saudável.

Mas parece que, entretanto, e antes também que essa própria geração inquine pelo mesmíssimo mal, algo tem que ser dito a partir da obstinação do silêncio.

Publicado em versão curta na edição 28 de Agosto de 2005 do Jornal Público. Imagem via Telegraph.

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