Bienais, Trienais e outros Anais

(Para revista Chicote #02, publicado online.)

Recordo cada vez mais um cartoon com que deparei há uns anos atrás. Perante umas ruínas ainda em fumo, um inefável representante oficial exclamava ao repórter da TV: “O que esta aldeia precisa agora é de outra bienal!”

Face a uma recessão que não cessa de nos irritar os neurónios, só há duas maneiras de ingerir a proliferação de eventos e festivais que nos fizeram cócegas ao ego e ao recto neste ano da graça de 2010. A primeira passa pela paráfrase de uma boutade clintoniana: “É a rentrée, estúpido!” É tudo uma questão de saison e convém encher o bandulho antes que o Inverno do nosso descontentamento se instale de armas e bagagens. A outra lembra a banda do Titanic a tocar o tango, a um ou a dois, enquanto o transatlântico vai ao charco. Ainda que a viagem seja curta, há que manter a compostura enquanto vamos – ou nos vão – ao fundo.

Ambas as opções envolvem bolhinhas de champanhe ou estupefacientes equiparáveis. Out of the blues, os festivais e as suas festas surgem como cogumelos alucina-eugénios cultivados para nos mandarem para cima. Enquanto os patrocinadores de bebidas mantiverem as margens de lucro, tudo estará bem. O panorama é animador. O Look Up, do Porto, lembra-nos que ao mergulhamos no abismo o nosso olhar deve almejar o céu. E o Pop Up, de Lisboa, lembra-nos que os estalidos da espuma dos dias são de aproveitar para carpir o diem.

Mas as nossas celebrações na arena internacional são ainda mais inebriantes. As grandes exposições, as bienais, as trienais, os planos quinquenais e outros que tais, sempre foram boas ocasiões para as nações mostrarem como navegam à vista dos icebergues da economia, da tecnologia ou da cultura. Tudo depende do que revelamos do que nos vai no radar. Na Expo de Shanghai, por exemplo, a Grã-Bretanha falou de recursos e da inteligência do design. Coisas insignificantes unidas numa arquitectura que até aos bebés deliciava. Portugal, por seu lado, dedicou-se à glorificação do pastel de nata. Comentários para quê?

Felizmente, na Bienal de Veneza a nata é outra. Quer se trate de arte, arquitectura, ou cinema, quando falamos de Veneza, falamos do jet set da intelligentsia a curtir à grande numa cidade que se afunda. No meio do carnaval deste ano, apenas alguns alcoólatras mais propensos ao faux pas da auto-comiseração se perguntaram se os investimentos nestas auto-celebrações ainda fazem sentido. Portugal acha que sim, claro. Depois da recente consciência da importância destas representações, o establishment tomou conta do estabelecimento. E, ao repto de “como é que o povo se encontra na arquitectura,” respondeu-se com “Vive la maison bourgeoise!”

Da gentrificação das velhas ideias do Siza Vieira às meninas lânguidas do Julião Sarmento no Carrilho da Graça, da moradia plantada nos quintais de Campo de Ourique à cabana Uncle Tom oferecida à malta da Comporta, ficámos todos a perceber quão bem os arquitectos cá do burgo acolhem a rês pública.

Veneza, de resto, também brindou umas cabanas de pescadores com o toque de Midas. O Leão de Ouro reclamou a informalidade e as arquitecturas sem arquitectos. Sugeriu-se que os arquitectos têm que começar a olhar para as “outras” necessidades. A Trienal de Lisboa também quis ir por aí. E fez bem. Porém, os meritórios concursos de estudantes para a Cova da Moura e Luanda, ou os urgentes olhares a “Sul,” ficaram pelos bons intentos de que o inferno pós-colonial está repleto.

Porque será? Porque na hora da verdade, continuamos a preferir “fazer o bonito.” E, sina nacional, mais que agarrar os assuntos pelos cornos, preferimos ajoelhar perante as escolhas que, mais que tudo, acariciam o ego e o consulado dos ilustres júris, altos administradores e outros legítimos amanuenses que traçam os anais dos tempos que correm.

Lisboa, Outubro 2010.

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