Turista Acidental (Dose Dupla)

Não sei bem se por preguiça (de deixar as imagens falar) ou por necessidade (de deixar o registo ficar), sempre desejei começar aqui uma espécie de travelogue que me permitisse deixar instantâneos e impressões das inúmeras viagens que tenho vindo a fazer por “obrigação profissional.”

De regresso de Zurique, acresce, senti-me inundado por uma sensação que seria arrogante, se não fosse também sinceramente humilde: reconhecer um enorme privilégio por, entre outras solicitações, poder continuar a fazer um circuito intenso e variado de conferências um pouco por todo o mundo.

Raramente vejo as conferências como um fim em si. É certo que é bom contribuir com o conhecimento que, por alguma razão, se acumulou. Mas a secreta atração das conferências sempre foi, para mim, a possibilidade de conhecer lugares, instituições e pessoas interessantes: criar redes e acolher novas perspectivas.

ZurichZurique em versão postal ilustrado.

Na ETH de Zurique, para além de estreitar laços com uma network de Arte e Arquitectura do MIT agora espalhada pelo mundo, gratificou-me poder dialogar em palco com a fabulosa Ute Meta Bauer, alguém que apenas se pode descrever como uma referência incontornável da curadoria contemporânea.

Comentámos que, curiosamente, já nos tínhamos cruzado quando há 12 anos atrás organizámos exposições que se sucederam na agora sub-utilizada galeria da Biblioteca Almeida Garrett, no Porto – obviamente por ocasião da swan’s song da cidade que foi a Capital Europeia da Cultura de 2001.

1PostR05Post-Rotterdam, uma estreia curatorial há 12 anos atrás.

(A Ute Meta Bauer no Porto, em 2001, como outros ao longo dos anos, diz algo do talento português para identificar e trazer a casa quem está prestes a explodir na cena internacional. É de relembrar que, depois do convite de um dos nossos primeiros cultural exilées, Miguel von Haffe Perez, a Ute prosseguiu para dirigir a Documenta e a Bienal de Berlim, antes de, como tantos europeus hoje em dia, ser ela própria cativada por uma instituição americana).

Em Zurique tive a oportunidade de observar como, na última verdadeira bolha de bem-estar do território europeu, a qualidade de vida continua acima de qualquer média. E as instituições como a ETH renovam-se virando-se para fora, para esse mundo em convulsão que verdadeiramente pode beneficiar da enorme acumulação de conhecimento da Europa.

Depois de conversar com Marc Angélil, o director do Master de Urban Design da ETH, e Hubert Klumpner, dos Urban Think Tank – que após o sucesso de Veneza são agora também “residentes” na Suiça – concluí que a minha intuição estava correcta quando pensei incluir a ETH no meu próximo projecto curatorial.

Com os labs de Columbia e MIT (justamente), a ETH é a outra instituição académica que, ao lado de colectivos emergentes e ateliers locais, deverá fazer parte do grupo de participantes de Uneven Growth, Tactical Urbanisms for Expanding Megacities, a exposição que, desvele-se, está prometida para suceder a Rising Currents e Foreclosed no MoMA…

Adiante, porém, ou para trás, de Zurique para Kuwait City – que, em rigor, deveria ter correspondido ao meu falhado travelogue de Março. Eis pois outra cidade imensamente afluente que me vejo revisitar amiúde, pelo menos em memória,  quando conto a quem me quer ouvir que este foi um dos mais estranhos sítios que já se me deu conhecer.

Kuwait1Room With a View #35, 2013. 

A primeira imagem que tive do Kuwait quando acordei no meu hotel foi talvez sintomática: uma paisagem lunar e desértica, que só mais tarde compreendi ser um cemitério. Decepcionado com a ausência de urbanização galopante, pedi que me mudassem de quarto.

O Kuwait é diferente do mais mediatizado Dubai por uma razão essencial: o petróleo foi descoberto mais cedo, nos anos 30. Portanto os naturais do Kuwait consideram-se naturalmente um povo à parte, obviamente muito menos nouveau riche que os seus companheiros do Golfo.

Kuwait3aRoom With a View #36, 2013

Convidado por Zahra Ali Baba, do National Council of Culture, Art and Letters, para falar sobre plataformas de divulgação e reflexão de arquitectura, esta foi uma oportunidade para conhecer um quadrante da geopolítica política totalmente novo para mim. (Como nos livros do Tintin, não deixaria porém de deparar com mais um português “na diáspora,” um jovem arquitecto com quem, por sinal, já tinha colaborado há não muito tempo.)

Num país onde a primeira Faculdade Arquitectura surgiu há pouco mais de 10 anos, a minha lecture inclinou-se a contrapor as diferenças e semelhanças entre as possibilidades de uma prática crítica da curadoria – algo sobre o qual já é tempo de partilhar aqui um velho ensaio  – quer essa seja feita em regime free-lance, quer num âmbito mais institucional.

No entanto, a conferência – e as escassas 36 horas que passei em Kuwait City –serviram também para anotar algumas impressões sobre um mundo à parte, pelo menos enquanto o petróleo durar pelos próximos 30 anos.

Kuwait9

As poucas décadas de avanço que o Kuwait levou sobre os seus vizinhos significaram apenas que este pequeno Emirado abraçou um modelo de re-urbanização um pouco diferente das opções mais recentes. Um modelo que, no entanto, quando olhado em retrospectiva, não parece menos duvidoso.

Até aos anos 30, Kuwait City não era mais que uma aldeia piscatória adaptada às duras condições locais – i.e., a temperaturas frequentes acima de 60o centígrados. Após a passagem da II Guerra Mundial sob protectorado inglês, porém, o Kuwait decidiu-se a comprar a receita urbanística da época e dedicou-se diligentemente a erradicar o seu próprio passado.

Perseguidos os ideais modernistas de um zonamento funcional estrito,  a cidade destruída pela opção urbanística de proceder a uma rigorosa segregação social e espacial, Kuwait City parece ter sofrido mais com as suas opções urbanísticas de então do que com a destruição proveniente da invasão pelo Iraque nos anos 90. Os edifícios reconstroem-se, as comunidades não.

Kuwait5

A segregação espacial proposto pelas corporações arquitectónicas inglesas tiveram efeitos estapafúrdios. O centro da cidade, esvaziado de habitação, esvaziou-se também de pessoas. Encheu-se, no entanto, de automóveis que – como na Islândia, mas por razões climáticas inversas – funcionam perfeitamente como uma extensão MacLuhaniana do corpo e da roupa.

Quando a minoria da população natural do Kuwait não se encontra no ambiente climatizado do seu automóvel topo-de-marca ou do seu escritório 8-to-1, é mais que certo que se encontra num centro comercial. Parte do roteiro turístico obrigatório, em particular quando nos encontramos no paraíso da cultura franchise, os grandes shoppings de Kuwait City constituem obviamente o tipo de espaços que fazem o Colombo empalidecer para a escala das Amoreiras.

Kuwait12

Se o centro comercial que visitei me impressionou pela escala de cidade, logo viria a descobrir que os focos de inovação urbana de Kuwait City estavam, como seria de esperar, elsewhere. Depois de comprovado que as leis secas levam sempre ao seu oposto, seria apenas a altas horas da noite que, graças ao olhar informado do Ricardo, viria a desvendar o ‘outro lado’ do Kuwait.

Como sucede quase sempre, seria no lado mais informal da cidade, neste caso no anel urbano destinado aos imigrantes e aos expatriados, que surgiriam as mais inéditas tipologias urbanas. Num lugar onde o dia é insuportável a partir da Primavera, não deveria afinal constituir surpresa que fosse do lado da noite que surgisse a realidade urbana mais exuberante.

kuwait

Por entre a necessidade, o empreendedorismo e as típicas subversões da lei – numa cidade em que, como em Zurique, o controlo parece absoluto – a ocupação dos interstícios entre edifícios levaria a uma proliferação de pequenas unidades comerciais que, com as suas variações festivas e a distância à cultura climatizada do franchise, parecem ser a única coisa que devolve a vida a Kuwait City.

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One response to “Turista Acidental (Dose Dupla)

  1. Hi,

    I Publish a critic about you and your work, on my blog and refered to your website.

    Congratulations by your work.

    Watch it on http://www.gstakeyougp.com.
    I hope you enjoy.

    Isis Campos

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