Bem-Vindos ao Futuro 2.0 (Utopia vs. Distopia)

Em jeito de continuação do post anterior, e em modo de boas-vindas a 2014, tenho-me lembrado com alguma regularidade da entrevista que fiz a Saskia Sassen no âmbito do projecto #unevengrowth.

Na entrevista, a socióloga holandesa sediada na Columbia University revisita uma dicotomia que parece particularmente apropriada para pensar o porvir das cidades globais: a distinção assaz tópica entre uma visão utópica e uma perspectiva distópica do futuro.

S Sassen interviewSaskia Sassen on Utopia vs. Dystopia: ver 7’12”.

Como sugere Sassen, há uma visão utópica que acredita que, perante uma crise grave, todos se unirão e a criatividade emergirá para superar as divisões sociais existentes nas cidades de hoje. Do outro lado, porém, há a possibilidade distópica de que a desigualdade corrente traduza, de facto, “a absoluta desconsideração” de uma minoria privilegiada por “qualquer noção de um projecto colectivo.”

Um dos factoides interessantes com que deparei na minha chegada aos Estados Unidos foi justamente que o adjectivo “distópico,” antes reservado a novelas de ficção científica relativamente obscuras, é agora banal e corrente – tanto no discurso académico, como na prosa diária de jornais respeitáveis.

A dialéctica emergente da utopia vs. distopia – que também se pode traduzir na oposição optimismo/pessimismo – veio-me de novo à memória ao ler “Sillicon Chasm,” um artigo perturbador sobre as ilusões da igualdade de oportunidades – essa noção que antigamente informava o sonho americano.

Enquanto, por aqui, uma demência conservadora estarrecedora continua a tentar convencer toda a gente dos benefícios da economia trickle-down – a ideia delirante de que se houver uns quantos bilionários a sua riqueza  vai pingar magicamente para todos à sua volta – o texto do Weekly Standard mostra com números e estudos que, mesmo no último reduto da cultura empresarial libertária, a desigualdade só continua a aumentar.

Basicamente, a mensagem é agora: “Habituem-se!!”*

Enterrada a quimera de uma classe média minimamente afluente, autores como o economista Tyler Cowen dizem-nos que não há como a resignação para nos ajudar a atravessar a grande estagnação que aí vem – a qual o professor universitário compara sem grandes problemas a uma nova Idade Média na qual… the Average is Over.

Soa distante? Soa a distopia? A única diferença é que agora os servos andam de metro, e em vez de religião têm televisão e lojas de 99 cêntimos. Onde a esperança antes se encontrava num acto de ƒé, hoje encontra-se num auto de consumo que se arrisca tornar fátuo.

De facto, nenhum economista explicou ainda como é que o consumo continuará a alimentar a economia quando o novo proletariado já não tiver margens para qualquer tipo de consumo conspícuo. O Japão aguentou-se durante a deflação? Talvez. Uns tempos. Mas atente-se no nível de vida que já se atingira por aí…

Como os políticos bombardeiam todos os dias, em Portugal o nível de vida vai ter que se resignar e adaptar à (baixa) produtividade local. Mas não se desespere. Ganhe-se conforto na ideia de que vai ser assim em todo o lado – mesmo nos lugares de alta produtividade.

Como se aponta no artigo referido, “85% da população, isto é, 267 milhões dos 315 milhões da América, terão sorte em encontrar empregos de nível MacDonalds ou em ‘amigalhar’ ganhos marginais freelance a realizar biscates a 25$ cada para os seus superiores via TaskRabbit.”

Com o aprisionamento de todos os aspectos da cultura ocidental pela lógica corporativa que assegura o sucesso dos 15% do topo – já que o dinheiro (mais que a mecanização) tomou o comando – recordei-me também que a leitura ideal para 2014 continua a ser The Year of the Flood de Margaret Atwood.

Mas, mesmo se não tivermos mais nada para fazer, não é preciso ir tão longe como ler um livro – que horror! – para perceber que as várias incarnações da perspectiva distópica estão a invadir a nossa cultura popular em várias frentes.

thething1958Image hacked from The Celluloid Highway

A indústria da cultura sempre teve o dom de popular o nosso subconsciente com os temas do dia – quer se trate dos aliens em vez dos comunistas dos anos 50, ou zombies em vez dos pobres de agora. E o momento corrente não é excepção.

De Hunger Games e Elysium até In Time – só para referir alguns blockbusters de Holllyood que já nem se dão ao trabalho de criar metáforas – abundam como nunca as antecipações de mundos que, sem qualquer catástrofe pelo meio, se encontram perfeitamente divididos em duas classes sociais antagónicas.

O problema da perspectiva distópica é que já não se pode perguntar: de que lado quero estar? Desaparecida a classe média em que muitos cresceram, e mesmo com o aparente advento da meritocracia – que, é bom notar, também tende para a exclusão –, a possibilidade da escolha está a desaparecer.

Como Saskia Sassen e muitos outros nos dizem, num mundo que, como Nova Iorque, é cada vez mais “first come, first served”, a velha ideia de “mobilidade social ascendente” também anda cada vez mais pelas ruas da amargura.

E, assim, por entre os pensamentos pessimistas que as distopias nos provocam em jeito de cautionary tale – pensamentos que podem ou não envolver o fim de civilizações desenvolvidas no pico do seu auge – resta saber onde encontrar algum optimismo.

Será que encontraremos soluções na aparente capacidade da tecnologia para ir resolvendo todos os problemas que se lhe deparam até à debandada final, tipo filme de crianças versão Wall-E?

Wall-E1-800x960Wall-E hacked from WallPapersUs (Pedrog Re-Edit)

Acreditemos que sim. De facto, sem esse optimismo, projectos como Uneven Growth, ou a ideia de que arquitectos ou designers ou outros podem endereçar estas questões, careceriam de qualquer tipo de sentido.

Para regressar às noticias que muito selectivamente leio de Portugal, onde não vejo soluções locais para os problemas económicos da grande estagnação é no recurso ao Conselho da Diáspora (de que, em jeito de disclaimer, faço parte), a “fixar arquitectos” (dos quais já descolei há tempos), ou, enfim, a acreditar no conto de fadas de que o “crescimento vem aí.”

De facto, dada a globalização vigente, em última instância não determinamos o nosso próprio crescimento –  simplesmente procuramos adaptar-nos ao que vai acontecendo à nossa volta. E a dita Diáspora também não vai ajudar porque, globalizada ou escorraçada, não faz mais que também ela tentar sobreviver.

Quanto a “fixar os arquitectos,” e sem desprimor pelo meu apreciado colega e recém-empossado Presidente da Ordem dos Arquitectos, não vejo mesmo como é que João Santa-Rita vai operar esse milagre.

Diversificação? Só se for no estrangeiro, como poderei pessoalmente afiançar. Investimento e empenho estatal na reabilitação das cidades com obrigatoriedade de emprego de arquitectos? Seria lógico e apetecível, mas, mesmo com vontade política, apenas se ainda houvesse dinheiro para isso…

Como diz o outro, o economista, mais vale que nos dediquemos a saborear a resignação de alugar uns quartinhos reabilitados no Airbnb.

Enquanto o turismo global dos 85% tiver pernas para andar, claro. Porque os 15%, ou os 5%, ou os 1%, obviamente dispensam essas coisas rascas.

Futuro Desigual, Destino Equivalente

Enquanto Uneven Growth, Tactical Urbanisms for Expanding Megacities parece lentamente tornar-se realidade – pelo menos do ponto de vista mediático – lembrei-me de publicar aqui a versão original e completa do “white paper” onde germinaram muitas das ideias por detrás da exposição que agora se anuncia para o MoMA, em Novembro de 2014.

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Merece-me comemorar aqui o facto de a tradução portuguesa deste ensaio, que em 2011 viu a luz do dia numa publicação académica da Universidade de Gent com o curioso título de Tickle your Catastrophe, estar para breve.

Pelo menos é o que me diz um desses corajosos editores que, no meio da pantanosa crise portuguesa, ainda insiste em fazer alguma coisa.

Esta publicação junta-se assim a algumas outras, como os catálogos da conferência Once Upon a Place ou da exposição Performance Architecture, que nos últimos tempos aparecem muito a custo, a culminar os últimos projectos que levei a cabo em Portugal.

Lembrando-me desses projectos, ocorre-me quão incrível é que, em Portugal, ainda sobre gente* como a Susana – a figura tenaz por detrás da conferência sobre arquitectura e ficção, que, a propósito, tem agora a sua segunda edição já noutras paragens, infelizmente em versão um pouco mais boring.

Ainda há portugueses que, a partir do seu lugar, resistem a essa mistura de ódio entranhado e inveja encapotada pelos que querem fazer alguma coisa, que infelizmente ainda singra na sociedade portuguesa – mesmo quando a austeridade deveria sugerir maior solidariedade.

No momento em que, por outro lado, a solidariedade de gala começa, por incipiente e bacoca que seja, a substituir o Estado na manutenção do que tínhamos adquirido por básico, torna-se mais ou menos claro que estamos a bater no fundo. (Na Europa e no mundo, os outros também se estão a afundar, apenas ainda não o reconheceram.)

Talvez devêssemos começar a mostrar mais do nosso típico respeitinho por aqueles que ainda se dão ao trabalho de querer fazer – em vez de, também eles, sejam empreendedores, políticos ou agentes culturais, se dedicarem à tarefa bem mais fácil de ir para a praia

Diria com algum grau de certeza que, se há gente que ajuda a manter qualquer coisa à tona, essa é precisamente feita dos que gostam de “fazer” malgré tout.

Para dar algum alento aos que persistem, devo dizer que, como todos os projectos com alguma ambição, também Uneven Growth teve uma gestação longa e difícil – o que, de resto, continua a ser verdade mesmo após o lançamento público bem sucedido da exposição e do primeiro workshop do projecto no MoMA PS1 há duas semanas atrás.

Cohstra@MoMAPS1MoMAPS1, do modo que agora encontramos as nossas imagens… via Twiter.

Por vezes, ocorre-me que a razão essencial porque o destino me trouxe a uma instituição como o MoMA tem precisamente a ver com a necessidade inata, ou a profunda carolice, de querer levar este projecto a bom porto. (Embora, obviamente, não devesse falar antes de tempo.)

Aqui e ali e acolá e outra vez aqui, ainda sob a designação de Emergent Megalopolis, podem ainda ler-se os restos arqueológicos de um conceito nascido numa visita a Saigão há mais de dez anos atrás – num tempo da minha vida em que ainda era possível decidir, de um momento para o outro, que ia viajar durante um mês no Sudoeste Asiático.

Em Saigão, sob o efeito da percepção aguda que as viagens proporcionam, tive uma experiência decisiva e transformadora: atravessar a rua numa realidade urbana que me era inteiramente nova.

Saigon-ViaWithoutBaggageAs ruas de Saigão, a.k.a. Ho Chi Min City, via Without Baggage.

Quando se atravessa a rua em Saigão, o acto tem que ser negociado de uma forma diferente do habitual. Numa cidade sem semáforos e com milhões de scooters (como agora vim a reencontrar em Taipei) a primeira coisa que nos ensinam é que, para atravessar os antigos boulevards carregados de um fluxo de trânsito incessante, também os transeuntes não podem parar.

Quando se atravessa a rua em Saigão, temos que nos munir de coragem e avançar sempre ao mesmo passo por entre a corrente compacta de tráfego. E temos que olhar nos olhos todos aqueles que avançam para nós, para perceber se vão passar à nossa frente, ou atrás de nós.

Foi nesse momento da negociação do olhar com milhares de jovens asiáticos que nasceu a inspiração de que, mais cedo do que mais tarde, teríamos que imaginar novos modos de responder ao crescimento do urbano no século XXI.

Tal como, no inicio do séc. XX, Georg Simmel alertou para a emergência de uma nova consciência metropolitana, agora devemos preparar-nos para o estado de emergência da urbanização completa de um planeta em que os recursos, ao contrário da população, não estão propriamente a crescer de dia para dia.

E por isso vale a pena sublinhar que, depois de querer ter sido programa de televisão e documentário experimental multi-episódios, e para além do desejo de mapear de novas formas de prática arquitectónica, ou a vontade de perceber como substituir estratégias de planeamento obsoletas, este projecto é agora, apenas e só, uma investigação sobre como arquitectos e outros actores urbanos podem vir a lidar com a desigualdade e o empobrecimento progressivo de uma sociedade cada vez mais intrinsecamente global.

Under the Influence

Enquanto, para irritação certa daqueles que em Portugal se tomam como o centro da atenção, a Trienal de Arquitectura de Lisboa se abria ao mundo (aqui, ali e acolá) , eu fui antes convidado para passar pela Triennale de Milão, onde o hardcore da arquitectura portoguesa se mostra mais uma vez aos (seus) pares.

siza3Image via Bea Spoli.

Após silêncio tão prolongado deste blogue, e os inevitáveis boatos de extinção daí advindos, pensei que seria justo brindar os “meus leitores” (essa minoria insondável, entre os fiéis indefectíveis e os google translate new-comers) com o meu contributo para essa exposição que agora se abriu por terras de Itália.

Como, para minha grande desdita, a disponibilidade para o deleite da escrita se tem revelado cada vez mais escassa, também aos organizadores da exposição tive que propor uma revisita a um texto que havia escrito há precisamente quatro anos – e que aqui também deixo à mão de semear.

Felizmente, e como por sorte me sucede acontecer, a revisita não resvalou necessariamente para o plágio em casa própria, ou, em termos mais pós-modernos e legitimantes, para a mera (auto)-apropriação, mas resultou antes numa curiosa actualização da estória e dos personagens que antes inventara.

Assim, mais linkado* aqui do que o papel ou o painel permitirão, aqui fica o meu pequeno texto para a exposição Porto Poetic, para que um dia os exegetas tenham a tarefa facilitada, pelo menos no que diz respeito a descobrir conexões, referências e outras ligações obscuras que, por alguma razão misteriosa, fazem sempre parte do prazer do texto.

Regeneração Debaixo do Vulcão

Quando se fala de cultura, as figuras de referência são o que se pode chamar um benefício contraditório. Essas figuras raras – génios, talentos incontornáveis, personalidades brilhantes – dão lugar a um paradoxo que apelidarei de “debaixo do vulcão.” Quando existem figuras de reconhecimento e prestígio excepcional num determinado campo de actuação cultural, é mais que certo que o valor que se introduz nesse campo é positivo. O capital cultural, como lhe chamaria Pierre Bourdieu, eleva-se às alturas. O campo torna-se mais rico. Sob a famosa “ansiedade da influência,” cresce a exigência e, logo, a qualidade.

No entanto, a situação não é desprovida de riscos. O campo pode “paralisar” devido a um excesso de carga positiva – o que se pode evocar como o “efeito Glenn Gould.” Perante a impossibilidade de superar as mencionadas figuras de referência, o campo cede à lógica da “terra queimada,” à criação de um no man’s land onde nada cresce durante gerações. No campo da arquitectura, este efeito é deveras conhecido, associado a personagens maiores como Le Corbusier, ou Óscar Niemeyer. Após o fulgor destas figuras maiores, parece apagar-se o brilho das gerações que se lhe sucedem.

Entre estas duas vertentes pode surgir também o estado “debaixo do vulcão” – que no passado tive oportunidade de descrever a propósito da arquitectura portuguesa. Como a presença de um vulcão no horizonte próximo, escrevia, personagens como Siza Vieira ou Souto Moura originam um território fértil. No entanto, “perante a eminência permanente da devastação,” podem também gerar um estado de suspensão hipnótica. Assim, a arquitectura portuguesa contemporânea, como o vice-cônsul do famoso romance “Under the Volcano” de Malcolm Lowry, viveria “simultaneamente inebriada e deprimida.”

UndertheVolcano

 …

Perante a dificuldade de copiar Siza, ou a facilidade de copiar Souto Moura, perante a evidência da fertilidade ou a eminência do vazio, as gerações pós-Pritzkers encararam um falso dilema: continuidade ou ruptura? Essa era, pelo menos, a tónica do discurso critico que também crescera à sombra do vulcão. Contribuí para a agitação das almas, propondo que, entre esses dois pólos, duas gerações emergiriam em Portugal num curto espaço de tempo. Essas gerações não eram assim tão diferentes. Mas, como mostrado na Bienal de Veneza de 2004, manifestavam diferentes apreciações das cinzas onde prosperavam.

A geração que levava a “continuidade” para novos territórios – e que é agora re-apresentada em Porto Poetic – fez-se herdeira legítima dos mestres, permitindo-se introduzir novas influências e perspectivas no seu legado. Usufruindo da proximidade geográfica e emocional ao vulcão, pelo menos enquanto aí havia espaço, cultivaram diligentemente o  terreno fecundo deixado pelas magnas erupções do passado.       Trouxeram novos instrumentos e técnicas, importaram referências do estrangeiro ou dos campos adjacentes da arte, e garantiram que a fertilidade dava os seus frutos.

A geração que era acusada do pecado da “ruptura,” não era menos dada a gerir a fertilidade que encontrara no chão onde crescera. Porventura mais volátil e inconstante, como costuma ser apanágio da juventude que pode sê-lo, apenas precisava de mais tempo para dar uso aos talentos que lhe foram confiados. Viajaram para longe do vulcão, pensaram eventualmente em estabelecer-se noutros territórios convenientemente distantes. Voltando ou não voltando, usufruiriam, também elas, do caldo genético que o vulcão deixara nas suas terras de origem.

Revisitada esta estória, é justo dizer que o trocadilho contido no termo “re-generation” é apropriado à descrição das novas gerações de arquitectos portugueses, quer estes sejam aclamados pela “continuidade” ou pela “ruptura.” Entre vulcões e pools genéticas, a importância da herança da arquitectura portuguesa, e de Siza Vieira em particular, é mostrar que a arquitectura se faz por regeneração, miscigenação, renovação.  Como dizia o outro, parar é morrer. Portanto é preciso que cada geração construa algo novo sobre aquilo que lhe é deixado. Uma vez que se compreenda isto, tudo o mais é relativo.

Nova Iorque, Agosto 2013

Turista Acidental (Dose Dupla)

Não sei bem se por preguiça (de deixar as imagens falar) ou por necessidade (de deixar o registo ficar), sempre desejei começar aqui uma espécie de travelogue que me permitisse deixar instantâneos e impressões das inúmeras viagens que tenho vindo a fazer por “obrigação profissional.”

De regresso de Zurique, acresce, senti-me inundado por uma sensação que seria arrogante, se não fosse também sinceramente humilde: reconhecer um enorme privilégio por, entre outras solicitações, poder continuar a fazer um circuito intenso e variado de conferências um pouco por todo o mundo.

Raramente vejo as conferências como um fim em si. É certo que é bom contribuir com o conhecimento que, por alguma razão, se acumulou. Mas a secreta atração das conferências sempre foi, para mim, a possibilidade de conhecer lugares, instituições e pessoas interessantes: criar redes e acolher novas perspectivas.

ZurichZurique em versão postal ilustrado.

Na ETH de Zurique, para além de estreitar laços com uma network de Arte e Arquitectura do MIT agora espalhada pelo mundo, gratificou-me poder dialogar em palco com a fabulosa Ute Meta Bauer, alguém que apenas se pode descrever como uma referência incontornável da curadoria contemporânea.

Comentámos que, curiosamente, já nos tínhamos cruzado quando há 12 anos atrás organizámos exposições que se sucederam na agora sub-utilizada galeria da Biblioteca Almeida Garrett, no Porto – obviamente por ocasião da swan’s song da cidade que foi a Capital Europeia da Cultura de 2001.

1PostR05Post-Rotterdam, uma estreia curatorial há 12 anos atrás.

(A Ute Meta Bauer no Porto, em 2001, como outros ao longo dos anos, diz algo do talento português para identificar e trazer a casa quem está prestes a explodir na cena internacional. É de relembrar que, depois do convite de um dos nossos primeiros cultural exilées, Miguel von Haffe Perez, a Ute prosseguiu para dirigir a Documenta e a Bienal de Berlim, antes de, como tantos europeus hoje em dia, ser ela própria cativada por uma instituição americana).

Em Zurique tive a oportunidade de observar como, na última verdadeira bolha de bem-estar do território europeu, a qualidade de vida continua acima de qualquer média. E as instituições como a ETH renovam-se virando-se para fora, para esse mundo em convulsão que verdadeiramente pode beneficiar da enorme acumulação de conhecimento da Europa.

Depois de conversar com Marc Angélil, o director do Master de Urban Design da ETH, e Hubert Klumpner, dos Urban Think Tank – que após o sucesso de Veneza são agora também “residentes” na Suiça – concluí que a minha intuição estava correcta quando pensei incluir a ETH no meu próximo projecto curatorial.

Com os labs de Columbia e MIT (justamente), a ETH é a outra instituição académica que, ao lado de colectivos emergentes e ateliers locais, deverá fazer parte do grupo de participantes de Uneven Growth, Tactical Urbanisms for Expanding Megacities, a exposição que, desvele-se, está prometida para suceder a Rising Currents e Foreclosed no MoMA…

Adiante, porém, ou para trás, de Zurique para Kuwait City – que, em rigor, deveria ter correspondido ao meu falhado travelogue de Março. Eis pois outra cidade imensamente afluente que me vejo revisitar amiúde, pelo menos em memória,  quando conto a quem me quer ouvir que este foi um dos mais estranhos sítios que já se me deu conhecer.

Kuwait1Room With a View #35, 2013. 

A primeira imagem que tive do Kuwait quando acordei no meu hotel foi talvez sintomática: uma paisagem lunar e desértica, que só mais tarde compreendi ser um cemitério. Decepcionado com a ausência de urbanização galopante, pedi que me mudassem de quarto.

O Kuwait é diferente do mais mediatizado Dubai por uma razão essencial: o petróleo foi descoberto mais cedo, nos anos 30. Portanto os naturais do Kuwait consideram-se naturalmente um povo à parte, obviamente muito menos nouveau riche que os seus companheiros do Golfo.

Kuwait3aRoom With a View #36, 2013

Convidado por Zahra Ali Baba, do National Council of Culture, Art and Letters, para falar sobre plataformas de divulgação e reflexão de arquitectura, esta foi uma oportunidade para conhecer um quadrante da geopolítica política totalmente novo para mim. (Como nos livros do Tintin, não deixaria porém de deparar com mais um português “na diáspora,” um jovem arquitecto com quem, por sinal, já tinha colaborado há não muito tempo.)

Num país onde a primeira Faculdade Arquitectura surgiu há pouco mais de 10 anos, a minha lecture inclinou-se a contrapor as diferenças e semelhanças entre as possibilidades de uma prática crítica da curadoria – algo sobre o qual já é tempo de partilhar aqui um velho ensaio  – quer essa seja feita em regime free-lance, quer num âmbito mais institucional.

No entanto, a conferência – e as escassas 36 horas que passei em Kuwait City –serviram também para anotar algumas impressões sobre um mundo à parte, pelo menos enquanto o petróleo durar pelos próximos 30 anos.

Kuwait9

As poucas décadas de avanço que o Kuwait levou sobre os seus vizinhos significaram apenas que este pequeno Emirado abraçou um modelo de re-urbanização um pouco diferente das opções mais recentes. Um modelo que, no entanto, quando olhado em retrospectiva, não parece menos duvidoso.

Até aos anos 30, Kuwait City não era mais que uma aldeia piscatória adaptada às duras condições locais – i.e., a temperaturas frequentes acima de 60o centígrados. Após a passagem da II Guerra Mundial sob protectorado inglês, porém, o Kuwait decidiu-se a comprar a receita urbanística da época e dedicou-se diligentemente a erradicar o seu próprio passado.

Perseguidos os ideais modernistas de um zonamento funcional estrito,  a cidade destruída pela opção urbanística de proceder a uma rigorosa segregação social e espacial, Kuwait City parece ter sofrido mais com as suas opções urbanísticas de então do que com a destruição proveniente da invasão pelo Iraque nos anos 90. Os edifícios reconstroem-se, as comunidades não.

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A segregação espacial proposto pelas corporações arquitectónicas inglesas tiveram efeitos estapafúrdios. O centro da cidade, esvaziado de habitação, esvaziou-se também de pessoas. Encheu-se, no entanto, de automóveis que – como na Islândia, mas por razões climáticas inversas – funcionam perfeitamente como uma extensão MacLuhaniana do corpo e da roupa.

Quando a minoria da população natural do Kuwait não se encontra no ambiente climatizado do seu automóvel topo-de-marca ou do seu escritório 8-to-1, é mais que certo que se encontra num centro comercial. Parte do roteiro turístico obrigatório, em particular quando nos encontramos no paraíso da cultura franchise, os grandes shoppings de Kuwait City constituem obviamente o tipo de espaços que fazem o Colombo empalidecer para a escala das Amoreiras.

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Se o centro comercial que visitei me impressionou pela escala de cidade, logo viria a descobrir que os focos de inovação urbana de Kuwait City estavam, como seria de esperar, elsewhere. Depois de comprovado que as leis secas levam sempre ao seu oposto, seria apenas a altas horas da noite que, graças ao olhar informado do Ricardo, viria a desvendar o ‘outro lado’ do Kuwait.

Como sucede quase sempre, seria no lado mais informal da cidade, neste caso no anel urbano destinado aos imigrantes e aos expatriados, que surgiriam as mais inéditas tipologias urbanas. Num lugar onde o dia é insuportável a partir da Primavera, não deveria afinal constituir surpresa que fosse do lado da noite que surgisse a realidade urbana mais exuberante.

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Por entre a necessidade, o empreendedorismo e as típicas subversões da lei – numa cidade em que, como em Zurique, o controlo parece absoluto – a ocupação dos interstícios entre edifícios levaria a uma proliferação de pequenas unidades comerciais que, com as suas variações festivas e a distância à cultura climatizada do franchise, parecem ser a única coisa que devolve a vida a Kuwait City.

Arquivo de Ficção

Enquanto descubro por acaso que um dos meus últimos artigos, Pimp Up Your Cart – Notes and Fictions on Instant Vendor Urbanism, já está parcialmente online – mesmo antes de sair o livro ao qual se destinava – penso que talvez seja tempo de actualizar o arquivo dos textos que vou guardando e expondo por aqui.

Quando o presente nos ocupa excessivamente com as praticalidades do management, nada como esquadrinhar no passado para redescobrir umas pérolas de pensamento (em roda) livre. Como se dizia num dos fracturantes títulos já aqui arquivados, Cada Escavadela uma Minhoca.

Averso aos circuitos insidiosos da legitimação académica cada vez mais boring e tecnocrata, sempre gostei de contribuir para revistas mais ou menos obscuras, fanzines, publicações de estudantes ou até magazines de life-style.

Mais que para as ditas revistas sérias, com os seus monótonos resultados de pesquisa pseudo-científica, a sua crítica enjoada* e os seus encenados peer-reviews, sempre preferi ensaiar o gospel experimental e despreocupado que mais se adequava a revistas não propriamente arquitectónicas.

Assim, já depois de passada a torrente de elegias fúnebres dedicadas a Oscar Niemeyer, ocorre-me recuperar um desses artigos de revista leves e espirituosos, que possivelmente constitui a celebração crítica mais justa da energia subversiva que emanava dos inimitáveis gestos arquitectónicos do arquitecto brasileiro.

De resto, regresso a Niemeyer depois de ter visto as imagens de Todd Eberle aquando do lançamento do último número da revista Wallpaper* aqui em Nova Iorque. Um desses momentos socialite que, em jeito de festa de aniversário da minha mulher, me vai fazendo lembrar de morder a Big Apple…  pelo menos de vez em quando.

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Em jeito de presente de São Valentim…. Imagem via Todd Eberle.

A minha elegia ao OVNI de Niemeyer foi publicada na LAMag, uma revista que desapareceu sem rasto, inclusive dessa internet que erradamente tomamos como duradoura. É uma peça que vejo como um exemplo possível de crítica arquitectónica explicada às crianças – ou aos não-iniciados, o que resulta precisamente na mesma coisa.

Como tenho dito em conferências, apesar de admirar a enorme herança intelectual de Manfredo Tafuri – e a sua capacidade de praticamente sozinho ter criado um magnífico impasse da crítica arquitectónica, particularmente deste lado do Atlântico – sou cada vez sou mais um fan confesso de Reyner Banham.

Como se pode descortinar em Pimp Up Your Cart, nos escritos de Banham, como nos seus contributos mais extravagantes noutros media, gosto do modo como, com uma verve exuberante e imparável, o crítico submerge os temas arquitectónicos na comemoração irónica e selvagem do quotidiano mais banal.

Nesta era de capitalismo tardio e neo-liberalismo assanhado, onde parecem desmoronar as esperanças de a seriedade intelectual se oferecer como uma alternativa viável, a sátira total é, mais uma vez, uma das possibilidades honestas de assumir esse dark optimism de que ouvirão falar em breve.

Esta atitude irónica – que, apesar de tudo, recusa o cinismo – é, de resto, uma das formas mais habituais como, apesar da eventual estranheza, a ficção se infiltra e entranha na realidade como uma espécie de reduto político.

Como se diz no início de Reyner Banham Loves Los Angeles sobre a extraordinária antecipação do GPS em versão guia turístico, há ficções que são úteis. Algo de tão mais verdadeiro quando se quer pensar sobre o futuro a partir da reflexão do presente.

Ideias a revisitar à medida que a ficção vai invadindo o campo arquitectónico

Short-Circuit

With the New Year always come new – often old – resolutions. I’m going to eat less, I’m going to love my dear ones even more, I’m going back to reading a book, I’m going to seize the day again. Even if we know structural change at a personal level does not come easy, we still believe we are going to change for the better.

As I woke up too early in a non-descript hotel in Houston with yet no clear image of the city, and as my early morning brain activity slowly drifted from the lecture I’m going to deliver today to all the things I ought to be writing and I am not, I decided to take action.

After all, as I still remember it, there was a time, before children, in which early morning insomnia proved to be quite productive, as opposed to clinging on to a mirage of a little more sleep.

As a late New Year’s resolution I decided I should find a way to keep this blog awake. I should write at least once a month. It would be a pity* not to do so.

Actually, as a reader, I’ve always hated those moments in which, just after writers had built up an audience out of an apparent, committed generosity, suddenly they would abandon their personal-public forum like some unwanted pet.

The death of personal blogs normally comes with a sudden professional change, such change most surely having being produced by the public success of the writer’s own writing. This is an understandable short-circuit that normally comes with lame apologies for not keeping one’s blog up-to-date, and so on.

On top of it, if you want to keep your new professional life apart from your personal views of the world, and if your new professional life is not only overwhelming, but also feeds on your personal views of the world, then you have a hard time finding an appropriate context for writing – even if you already had the ideal medium for it.

The difficulty to find a time and a space to continue an activity that you’ve always cherished as structural to your mental wellbeing is obviously problematic. And when a professional 9 to 5 takes over, this is particularly notorious.

Even if you consider yourself privileged because your 9 to 5 is dynamic and intellectually challenging, there is still something about constantly answering emails – or to be expected to do so – that arrests your capacity to embrace the kind of free association, and associated creative drive, that comes with writing.

Writing, as we know, requires not only time to produce the actual writing, but also a certain disposition to produce the thinking. You may find a way to accumulate or annotate fragments of thoughts in between meetings, airports or subway rides, but you also need a moment in which you have time to waste in an almost scandalous fashion: time to wander, time to wonder, time to wait for ideas to come together.

When you move from a free range of freelance activities that still leave you time to waste, to become focused on one specific, overwhelming professional endeavor, you risk loosing the creative edge that comes with writing and thinking. One always thinks there will be ‘creative retreats,’ or moments in which you will simply disconnect, but that tends simply not to be true, at least within the productivity-driven realm of the bureau-sphere.

Traveling, especially when it involves long distances, does provide an escape. Not only because of the disruption of routines, and the abrupt change of context, but also because it creates these moments of inevitable disconnection. A long plane ride provides the space for writing, or for catching up on something, precisely because, for a few hours, you are not obsessively connected.

Of course, writing is still a strong part of my activity as a curator on a top museum institution. This writing, however, tends to be confined to strict professional goals: project proposals, briefs, press comments, interviews, exhibition texts.

Furthermore, for objective, or sometimes pedagogic purposes, such pieces of writing tend to undergo a process of de-subjectification that, for me, excludes them from what I consider to be a practice of writing. (Try out podcast #4).

I will be already totally happy if a set of ideas I’m proposing for a small exhibition text does survive and gets transmitted to the audience – after a process in which at least three of my colleagues roam about, question, edit, and profoundly rewrite any text I submit. In any case, I’ve definitely buried the illusion, or the misconception that you can produce a subjective text in a museum context.

Curiously, when François Roche was walking through 9+1 Ways of Being Political the other day, he did identify that the graphic device through which the exhibition texts were presented involved some kind of self-sabotage, which might relate or not to the issues I’m raising here.

Although I was thriving to communicate ideas with a certain clarity – as I’ve always aspired to, but have not necessarily always achieved – in his opinion I had purportedly welcomed an ‘unfriendly’ graphic layout…

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I would say that this iconoclasm, or logoclasm (‘not a valid Scrabble word’), unconscious as it may have been, was not however related to my own struggles with going back to writing. It would rather relate to the notion that, although I have as primary goal to communicate ideas to an audience, I don’t necessarily want to consider that audience passive.

I believe there is a certain amount of thinking the viewer should be doing. You don’t want things to be too easy. For that you have television. So, having people getting across a layer of dynamic, ‘unfriendly’ graphics – or across unexpected juxtapositions of art and architecture works, or even across untypical ideas in a museum context – hopefully means that I have an engaged reader. Which makes sense when we’re talking about a political show.

In any case, these notions of short-circuit or self-sabotage are interesting in themselves. Just as they are an interesting means to contradict or implode an inevitable, embracing bureaucracy in practically every realm of contemporary human activity, they may also represent a productive tool in order to overcome the most personal of impasses.

Just as they were at the core of the never published 4th issue of Beyond, on Failures and Accidents, these notions of short-circuit and self-sabotage actually make me go back to an idea I’ve briefly played with in the past, when writing in this same blog.

This was the perverse idea that once this writing forum had fulfilled its initial purpose – i.e. to establish a connection to a world beyond the confines of my own native language – I could simply, one day, and right in the middle of a sentence, switch back to português. Precisamente. Assim mesmo. A meio de uma frase.

Agora que me encontro numa espécie de exílio dourado – ainda que de refulgência  mate – parece apropriado, e particularmente devedor da audiência portuguesa que ajudou a suster este blog, que a língua-mãe se torne de novo no meu refúgio e escape.

Embora o português escrito não seja tão impenetrável como o português falado – criando essa estranha impressão de que, quando se fala em português na maior parte do mundo, e por vezes até no mundo de língua portuguesa, se faz parte de uma seita secreta –, a sua adopção neste contexto pode permitir resolver essa distância que quero guardar entre o mundo professional que agora vivo e esses outros mundos que posso revisitar através destes estilhaços de escrita ocasional.

Esperemos que esta seja uma resolução de novo ano que está aqui para ficar.

Black Friday (Confidências do Exílio)

So, I’ve enjoyed my first (discrete) Thanksgiving in New York, and today people out there are having another consumeristic frenzy – while retailers respond accordingly, namely extending shopping times and dragging underpayed labor to work on what used to be the most sacred American holiday.

Where this sacred and blind belief in consumerism will drag the U.S., I don’t know. But it does sound unpromising, specially when one knows that around 2030 we will need 2,5 planets to feed the population on Earth. In this age of interconnected global disaster, believing that one’s backyard empire will remain unaffected by such a lack of resources sounds silly and irresponsible.

This Black Friday was also the dark occasion in which I received news that my old publishers in Amsterdam, Sun Architecture, are currently holding a massive sale of their architecture titles, thus confirming the end of a beautiful, but apparently untimely editorial project.

Those were the editors that welcomed Beyond and its Short Stories on the Post Contemporary. The good news is that, if you had an interest in Beyond and were put off by its pricey cover value, you may now order the bookazine series with unique fictions by up and coming European architectural writers for only 15€!

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Yes, you have read correctly: fifteen euros for the three published volumes of Beyond at a distance of a click! A true Black Friday bargain!!!

This made me feel sad, of course. Ultimately, it’s just another episode of Europe’s anihilation of its best asset: cutting-edge cultural production.

With cultural cuts happily leading austerity measures even in the richest of countries –  and the private sector inevitably aligned with public policy – Europe takes care of its self-destruction by wiping out what could be its largest future export: intelligence, design culture, creative thinking.

Even if only for touristical purposes, production of culture in Europe was a powerful and profitable investment: beyond German engineering, European culture, as its welfare State, produced the profile and richness for which Europe was recognized, visited and looked at as a desirable model.

However, when austerity measures are the rule, culture is considered superfluous. Along the same line of thinking, Europe’s investment in higher education too is to be trashed and emulate the production of inequality and profit that is typical of the anglo-saxon education model – until that bubble also burstsand perhaps demonstrates that there is nothing really interesting to emulate in such a model.

One wonders if the desinvestment in a democratic access to education is part of an invisible class war, or if it is solely a pragmatic response to the fact that, after all, higher education in Europe only contributed to produce its most cultured ‘lost generation’ ever…

It’s not only in the South European countries, and not only amongst its young, however, that Europenas are faced with the dilemma of either unemployment or self-imposed exile, i.e, choosing emigration as a way of escaping recession (and its silent partner depression).

I’ve landed in MoMA because I felt I had to look for alternatives – thus enjoying the privilege of spending a terrible period for Portugal in a golden exile. Recently, though, previous directors of publishing ventures such as Actar in Barcelona, or, alas, Sun Architecture in Amsterdam, were also welcomed by Montreal’s Canadian Center for Architecture.

Many others are probably looking for similar opportunities, and, like in other historical periods, the New World gladly takes in the European talent. In other historical periods, nonetheless, there were profoundly serious reasons for the exodus of European creative minds: racial prosecution and a World War.

Now, however, while we hear that if the European Union was one nation its achievements in the Olympics would have tripled the U.S. – and as if announcing Europe’s unfortunate and miserable decline –  the only reason for the new exodus seems to be stupidity, and a definitive lack of political vision.